Quando não se consegue ter um filho

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Lúcia Bragança Paulino

Lúcia Bragança Paulino

Para muitos casais, o desejo de ter um filho não passa disso mesmo: um sonho. Com o desenvolvimento da ciência aliado à medicina, muitos dos casais inférteis que recorrem às técnicas de procriação medicamente assistida, tornam este sonho realidade. A questão é o depois. Com o sucesso do tratamento, terá que existir um reajustamento do casal infértil à nova situação visto que ter um filho não significa esquecer a crise de infertilidade por que este casal passou. É importante perceber que parentalidade é esta e que determinantes estão envolvidos na sua elaboração.

A impossibilidade de procriar, é vivida por estes casais como uma importante perda de controlo sobre a sua vida pessoal, além de ser sentido como um grande trauma existencial.

O processo de socialização do indivíduo caracterizado pela pressão social para conceber filhos, bem como a sobreposição dos conceitos feminino vs materno têm vindo a reafirmar a crença de que o papel da mulher deve ir no sentido de gerar crianças. Assim, entre o desejo de ter um filho e o poder ter um filho pressupõe-se um limbo entre a Fertilidade e a Infertilidade.

Nos nossos dias, a infertilidade é um problema que perturba gravemente o bem-estar individual e familiar e a inserção social dos casais, devendo ser considerada como um importante aspeto de saúde pública. De facto, o número de problemas relacionados com a esfera da fecundidade encontra-se em considerável ascensão. Sendo uma situação frequente, em que para qualquer grupo etário se verifica um aumento progressivo de prevalência, e numa época em que a ciência aliada à medicina adquiriram vertentes comunitárias e sociais de relevo, as alterações da fecundidade assumem um papel de importante relevância. No entanto os conceitos de paternidade e maternidade são acima de tudo um reconhecimento social, existindo um conjunto de expectativas e pressões sociais que levam o indivíduo no sentido da reprodução.

É sensato pensarmos que a angústia gerada pela descoberta da infertilidade pode variar de acordo com a valorização atribuída por cada um à maternidade/paternidade. Há no entanto muitos estudos que documentam os efeitos negativos que a infertilidade tem no bem-estar psicológico.

A infertilidade é ainda frequentemente referenciada como tendo mais consequências negativas para a mulher do que para o homem. O facto de os tratamentos médicos serem mais invasivos para a mulher do que para o homem (independentemente da causa ser feminina ou masculina) poderá contribuir em grande escala para este factor.

Surge assim a questão sobre a eventual continuidade dos efeitos negativos da infertilidade após o sucesso de uma gravidez, permitindo que persista algum stress e afeto negativo em detrimento das experiências positivas da parentalidade. Mesmo tendo um filho a crise de infertilidade não fica resolvida, ou seja, pesar de um tratamento de infertilidade, que termine em sucesso, significar o realizar de um desejo, preocupa-nos que os pais submetidos a Reprodução Medicamente Assistida (RMA) passem por dificuldades na tarefa parental. As suas vulnerabilidades são frequentemente atribuídas à inerente à infertilidade, bem como, ao stress dos tratamentos e elevado investimento emocional na espera de uma criança (van Balen, 1996, cit. por Almqvist, Tulppala & Cols., 2006).

O casal infértil passa por sucessivos processos médicos e psicológicos até alcançar um estado de equilíbrio no que respeita com lidar com esta nova situação das suas vidas. Será vital compreender os determinantes de uma paternidade e maternidade sem ansiedades, potenciais causadoras de distúrbios relacionais. Aparentemente a parentalidade terá um significado especial para casais anteriormente inférteis e as suas experiências de tratamentos invasivos podem tê-los tornado substancialmente alerta da fragilidade e singularidade desta nova vida, bem como recompensados pela possibilidade de serem pais.

O relacionamento conjugal é um fator de extrema importância no processo de adaptação à parentalidade. Continuamos presos a uma versão romântica e idealizada da parentalidade através do valor social que lhe é atribuído. São assim pouco valorizadas outras alternativas para “diferentes parentalidades” – adopção de crianças, ou mesmo a “não-parentalidade”.

Torna-se no entanto evidente, que para existir um desenvolvimento saudável e estruturante no cerne das famílias que passam por processos de RMA, deva existir um apoio psicológico aliado à recuperação física que lhe está inerente. É importante que seja feito o luto da “fertilidade normal” para que o filho possa ser “bem investido” (Faria, 2001).

Um espaço terapêutico onde as emoções possam ser exteriorizadas, poderá ajudar o casal infértil, após o sucesso de um tratamento, a enfrentar uma parentalidade mais saudável.

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