Quando somos os nossos piores críticos

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Inês Custódio

Inês Custódio

Desde bem cedo nas nossas vidas que a opinião dos outros é fundamental para a forma como nos autoavaliamos, para determinar o quanto gostamos de nós mesmos e o quanto nos criticamos. Assim, quando as nossas experiências de vida são pautadas pela crítica e pela ausência de gestos de carinho, é mais provável que sintamos vergonha de nós mesmos e que não gostemos do nosso eu. Acontece que, de tantas vezes ser referido e demonstrado o que fazemos de mal, é interiorizado que “eu só posso ser mau”, que “tenho muito pouco valor”, e damos por nós embrenhados numa relação autocrítica.

Que impacto tem a autocrítica na nossa vida? A verdade é que todos nós nos criticamos, pois todos reconhecemos alguns defeitos e alguns dos erros que cometemos. Este desagrado e esta culpa são altamente adaptativos, uma vez que surgem como uma tentativa de melhorar, prevenir erros ou até de aperfeiçoar certos aspetos pessoais, levando-nos a crescer e a alterar as nossas relações com os outros. É assim natural existir este espírito crítico sobre o que somos e fazemos, pois de outra forma dificilmente conseguiríamos adaptar o nosso comportamento às circunstâncias e tentar ser cada vez melhores.

Porém, quando acontecem num extremo, estes sentimentos e pensamentos de autoavaliação, auto condenação e autocriticismo podem ter um importante impacto no desenvolvimento de sintomas depressivos, de e no aumento de outras dificuldades psicológicas.

Quando não conseguimos gerir o nosso nível de autocrítica, podemos gerar ataques a nós mesmos e sentirmo-nos derrotados por eles, quase como se uma parte de nós estivesse constantemente a rebaixar e a criticar a outra, levando a que nos sintamos derrotados, com raiva de nós, tristes ou até muito envergonhados. É desta forma habitual que, perante sentimentos de falha, surja uma parte de nós que descobre defeitos e critica a outra parte, condenando-a ou submetendo-a, como se de outra pessoa se tratasse. Muitas pessoas referem que esta crítica dentro de si pode surgir sob a forma de insultos (“és uma vergonha”, “és idiota”, “não prestas”), de crítica (“não fazes nada certo”, “nunca vais ser bom em nada”) ou de ódio por si (“mais valia que morresses”, “não vales nada”). Esta forma de nos relacionarmos connosco é tão tóxica que podemos muito facilmente deprimir e desistir, acreditando que nada há a fazer, que somos falhados e que as coisas nunca vão mudar.

A terapia surge assim como um fator decisivo para que a vida altere o seu rumo, uma vez que aqui há espaço para abordarem estas dificuldades e trabalhá-las para que possam aprender novas formas de se verem e valorizar. Este é um processo que pode ser difícil, mas que levará a que sejam descobertas novas formas de relação positiva dentro da pessoa, levando a que consiga aceitar e abrir-se ao seu próprio sofrimento, aprendendo a cuidar de si, pois no fundo todos temos direito a ser cuidados e amados, pelos outros e, acima de tudo, por nós mesmos.

Parece difícil? Parece irreal? Até quase impossível?

Por ter acreditado durante tanto tempo que “não valia nada”, não quer dizer que não haja outra verdade que valha a pena ver!

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