Redes Sociais contra-atacam (Parte II)

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Ana Crespim

Ana Crespim

Se “as conversas são como as cerejas”, o que dizer das que são escritas, no conforto da protecção da distância, da ausência do “cara-a-cara”?

Quando estamos a falar com alguém, sobretudo se considerarmos aquelas conversas mais “profundas”, que não se restrinjam a meras formalidades sociais, existem vários sinais de comunicação a que podemos estar atentos e que nos dão pistas valiosas quanto à emoção que está subjacente, a atenção com que o receptor nos está a ouvir, o tom de voz com que nos devolve o que foi dito, a expressão facial, a postura corporal, entre outras. O que acontece quando se trata de uma conversa telefónica (esquecendo aqui o face-time, claro)?

Existem algumas pistas que são suprimidas, nomeadamente a expressão facial e a postura corporal. E o que acontece se a conversa for escrita? Mensager, SMS, facebook… Conversas com meias palavras, com muitos smiles, com pontos de interrogação até ao infinito, e o que dizer das reticências que por vezes nos deixam à beira de um ataque de nervos ao tentarmos interpretar? A probabilidade de existiram erros na compreensão da mensagem que pretendemos transmitir e que nos é transmitida não será muito maior? Quantas vezes não damos por nós a tentar perceber se aquilo terá sido escrito em tom de brincadeira ou, pelo contrário, muito a sério? Claro que isto depende do grau de familiaridade que temos com quem está do outro lado, se o conhecemos bem, se já sabemos interpretar aqueles símbolos manhosos ou nem por isso. Mas se for alguém com quem somente “falamos” por esta via? Ou alguém que conhecemos há pouco tempo? Será que a probabilidade de a conversa ser mal interpretada não é muito elevada? É verdade que algumas pessoas são mais hábeis a interpretar correctamente a mensagem que está a ser transmitida do que outras. No entanto, e como errar é humano e nós somos peritos nisso, sobretudo no que concerne à comunicação, a probabilidade de existirem falhas a este nível surge-me como muito elevada.

Ao mesmo tempo, pensando que o tempo livre não abunda muito nas nossas vidas agitadas, de correria e ocupação total, o conforto de estar sentadinho no sofá, no conforto do lar, a teclar com os amigos, sem que isto implique deslocação, surge-nos como algo muito apetecível. É que não dependemos só da nossa disponibilidade – que em regra geral já não é muita – como ainda temos de procurar compatibilizar agendas com os amigos e família… Que trabalheira! Será que ainda nos lembramos como fazíamos antes? Não quero, de forma alguma, armar-me em “Velho do Restelo”. Também uso as redes socais e tenho em atenção as suas vantagens inegáveis. Mas no que toca a “estar” com amigos, não é a mesma coisa… nem nada que se pareça. A verdade é que se não estivermos atentos, podemos dar por nós a estar cada vez menos presencialmente com as pessoas, fruto deste comodismo simplista que se encaixa no nosso corrupio diário como se sempre tivesse lá estado.

Se este tipo de comunicação pode ser divertida e permitir que os contactos sobrevivam à distância e à falta de tempo, convém não esquecer que estar num esplanada com os amigos a ter uma bela conversa e a dar umas gargalhadas, não tem preço nem comparação! Claro que o nosso amigo facebook aqui pode ser útil: os eventos! A malta agora cria eventos! O quê? ligar a marcar um jantar de aniversário? Isso está démodé! A malta cria eventos! E fica logo a saber quais são as outras pessoas convidadas, quem vai estar presente, o mapa do local, enfim, as redes socais a contribuir para os encontros pessoais! Bem, tinham de nos compensar de alguma maneira, não é verdade? É claro que não pagam a vergonha que passamos quando aquele amigo querido posta uma foto de um momento, em que nós por acaso estávamos presentes, e com um aspecto de meter medo ao susto. Mas no próximo evento, quem sabe se não lhe calha a ele, não é?

Por mais que a nossa vida esteja preenchida, e sendo que somado a isto muitos de nós passamos a vida fechados, sentados, se por vezes arranjamos tempo para estar à conversa no facebook uma, duas horas (ou mais por vezes…), sendo que nem todos os nossos amigos, felizmente, estão a uma série de quilómetros de distância, reservar um bocadinho do nosso tempo para o velhinho contacto pessoal pode representar uma melhoria na nossa qualidade e satisfação com a vida, que acaba por se revelar um ganho de tempo.

Caricato, não é? Onde é que você está a ler este texto? Obrigada por ter estado este bocadinho comigo. Mas agora, vamos estar verdadeiramente, no todo, com quem gostamos?

Pense nisso… e seja feliz (na rua, no café, no cinema, na praia, no campo…)!

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