Reflexões de uma cliente

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Ser terapeuta também é receber “mimos” incríveis dos nossos parceiros de trabalho, os nossos clientes! E esse texto é de facto um desses mimos que tive o privilégio de receber e de que obtive autorização para partilhar.

Aqui, J. descreve com o seu fabuloso dom da palavra, aquilo que foi e tem sido para ela, a sua experiência em terapia, deliciem-se!

Fabiana Andrade

 

Vou contar a história de uma menina que tem tudo para poder ser e fazer o que quer, mas que ainda não é, e nem faz, tudo o que pode. Esta menina está ciente de si mesma. Sabe que pode saltar, voar, arriscar, converter-se no que quiser, se assim o desejar. Esta menina sente-se, no entanto, um pouco presa na sua própria maneira de ser, e costumava tomar aquilo que é “o seu estado” por aquilo que é “o seu ser”. Coisas bem diferentes, mas que podem facilmente confundir-se quando para elas se olha através de uma lente suja pela insegurança e pelo medo. Sabe-se dotada de ferramentas eficazes no acto de “conseguir”, mas sente-se, no entanto, insegura no que toca ao acto de “superar”.

Eu sou esta menina, e constatei, certo dia, que não era feliz. De repente reparei numa angústia que nunca antes havia notado, mas que agora me causava frio, trazia lágrimas e roubava o sorriso. Perdi interesses, e a energia que tanto me caracterizava já não me impelia como dantes a mergulhar no mundo. Sentia-me estacada. Parei para observar o meu desconforto, o que nunca antes sentira necessidade de fazer, mas que agora se me impunha. Era o trabalho, pensava. Não me sentia realizada nem completa. Abdicava de muito em prole de algo que, para mim, muito pouco significava: máquinas, números, barulho… Com o tempo senti o peito pesar. Pequenas coisas, outrora sem importância, começavam a aborrecer-me. Aborrecia-me até coisa nenhuma. A paciência esvaía-se num ápice, a irritabilidade manifestava-se súbita e inesperada, e a respiração ia fundo em busca de alívio. A pergunta “tu estás bem?”, que nunca antes dos colegas ouvira, denunciava que algo estava, de facto, errado. De vez em quando os meu olhos humedeciam e as lágrimas iminentes traziam consigo a pergunta derradeira, que me doía, “O que faço eu aqui?”. Sem resposta o meu corpo defendia-se, levando os olhos a refugiar-se no vazio. E ali, naquele espaço e tempo só meus, experimentava como que uma desmaterialização analgésica do meu próprio corpo, sentindo-me, por breves momentos, serena numa dimensão um pouco diferente. Tudo à minha volta sentia distante, os sons, os movimentos, como se só eu ali não estivesse, e tudo de fora contemplasse. Naqueles breves instantes refugiava-me, quieta, dentro de mim, para logo depois retornar, e retomar o lugar nas minhas tarefas que preferia não realizar.

Precisava de me evadir daquilo. Precisava! Mas não sabia como nem para onde me mexer. Deixara de ter forças para mascarar a falta de sentido do meu quotidiano. Não conseguia mais enganar-me, pensando, ingénua, que poderia viver feliz moldando-me obedientemente aos contornos do meu mundo, tal como ele se me apresentava. Não, o corpo estava a dar-me o grito do Ipiranga, exigindo que fosse agora o meu mundo a moldar-se aos meus contornos. Chegara, finalmente, o momento de tomar as rédeas da minha vida…

Constatar que uma mudança era, sem dúvida, necessária foi, por si só, assustador. Sempre tive aversão a mudanças. Sim, posso dizer que durante meses me senti perdida. É fácil sabermos o que não queremos ser; muito mais difícil é descobrirmos o que queremos ser de verdade. Pois se um pode contornar hábil e subtilmente a experiência, o outro, na minha modesta opinião, nunca verdadeiramente se revelará sem ela. Por mais fortes que sejam os indícios de que queremos ser alguma coisa, não serão esses meras manifestações de curiosidade e de ânsia de explorar? Podemos realmente afirmar, sem dúvidas, que queremos isso antes de efectivamente lhe experimentarmos os entusiasmos e as agruras?

Por isso, durante meses, eu pensei, pesquisei, procurei novas opções e observei pacientemente as minhas próprias reacções. Experimentei todo o tipo de sensações: curiosidade, entusiasmo, ânsia de explorar, desilusão por ideias perdidas, medo de arriscar… um dia seguia-se a outro; motivação, desmotivação, num turbilhão de sensações que, por vezes, dava vida e, outras vezes, roubava-a. Tinha que arriscar e “gritar o Ipiranga” no seu auge. O turbilhão que vivi trouxe-me um leque de novas ideias. Àquelas que me davam curiosidade e entusiasmo agarrei-me e, pouco tempo depois, estava a entregar-me a uma nova experiência estudantil na área das línguas. Uma mudança radical, notada por muitos com sobrancelhas franzidas de espanto. Mas pouco importa. Sinto-me agora mais feliz e sincera comigo mesma, como já não me recordava. Perante a pergunta “Achas que vais gostar de fazer isso?” respondo agora “Talvez, estou a experimentar”. E sorrio. Anda hoje me admiro com a sinceridade das minhas próprias palavras, e com a ligeireza com que as exponho ao mundo. Mais ainda me admiro por não sentir desconforto perante a volatilidade daquilo que digo. “Estou a experimentar…”, como quem diz “Se não gostar vou continuar a procurar”.

 

A resposta teria sido, no entanto, bem diferente em tempos mais recuados da minha história. Isto porque nesses tempos eu me encontrava, sem saber, enclausurada numa casquinha de ovo. Essa casquinha de ovo chama-se pensamento racional, e tem sido o escudo protector de toda uma vida. Tal era a sua eficácia, que hoje sinto que há uma boa parte da minha vida em que pouco vivi. Não que haja regras escritas ditando o que deve ser vivido em cada fase da vida e, aqui entre nós, ainda bem! Confesso que durante muitos anos não senti falta de viver muitas coisas. Mas quem diz que é tarde? Odiaria pensar que estou velha demais para viver a adolescência que, aos 15, pouco ou nenhum tumulto teve. Ainda só tenho 30 anos, e estou tão fit como estava aos 15, com a vantagem de uma muito maior sabedoria!!! Aliás, em termos aritméticos 15+15=30, logo não deveria estar duas vezes mais fit? 🙂 Bom, talvez não tanto, mas não descarto a possibilidade. Gosto de pensar que é apenas uma questão de oportunidade!

Escrevi já anteriormente que o meu medo é a rédea da minha cabeça cansada, e percebo hoje, melhor que nunca, a verdade por detrás desta metáfora. Nunca arrisquei. Nunca arrisquei porque o medo de tudo o que era desconhecido e imprevisível suplantava toda e qualquer curiosidade, vontade ou expectativa. Estava cega para aquilo que sentia, para aquilo que desejava. Tudo o que era novo era também suspeito. O desconhecido despertava a minha mente racional hiperalerta para o analisar criteriosamente; um pensamento científico que se activava autonomamente, sem aviso ou requisito, sem que eu o notasse ou pudesse desligar. Um pensamento que tudo analisava, tudo julgava, tudo remoía, sem descanso. Nenhuma decisão eu conseguia tomar sem que todos os prós e contras estivessem definidos, os riscos bem ponderados e nenhum princípio moral importante fosse violado. Tudo tinha mais peso do que o luxo da minha mera vontade. Os meus desejos, via-os como caprichos, que colocava abaixo da lógica e do politicamente correcto na hierarquia da relevância. Tudo isto era demais mas, nessa altura, nenhuma outra coisa parecia fazer sentido para mim. Assim era eu, uma criatura perdida num mundo ao lado; o dos seus próprios pensamentos. Durante muitos anos a cabeça, guiada pelo medo, e detentora de uma força esmagadora de emoções, e apresenta-se-me quase como a única face visível do meu eu. Aquela com a qual, erradamente, me identificava. Não me apercebia de como esta cautela desmedida, que todas as consequências antecipava, calava egoistamente a vontade do meu eu emocional e corporal; duas partes de mim às quais eu pouco acedia, e que são, afinal, partes da minha essência. Eu não chegava sequer a ouvi-las. Não sabia sequer que era suposto terem direito a uma vontade própria. Vivia numa espécie de tête à tête disputado entre o que desejo fazer e o que penso que devo fazer; corpo e emoções versus mente, em que esta última saía vitoriosa sempre que os dois colidiam. Lembro-me que costumava olhar de lado para qualquer um que tomasse uma atitude por impulso, pois não era suposto pensarmos no que é mais certo, mais lógico e mais positivo? Que ganhava eu em fazer o que me apetecesse, se fosse algo que prejudicasse a minha saúde, ou que custasse dinheiro, ou que tivesse a discórdia das pessoas à minha volta?… Pesava sempre demasiado os riscos, as consequências e os resultados, até que estes quase ganhassem forma à minha frente e deixassem de ter segredos para mim. Ora, tudo pode ter um risco e uma consequência, desde a compra de uma simples revista, que pode ser cara e não se revelar assim tão interessante, até ao curso a que me candidato, o qual, pode não ir muito ao encontro dos meus interesses e aptidões, mas deverá garantir-me uma estabilidade profissional confortável no futuro. Os constantes “será que?”, “e se?”, “mas porquê?”, “e depois?”, “o que vai o outro pensar?”, consumiam os meus recursos antes de fazer, enquanto fazia, e depois de fazer. Não consigo quantificar as inúmeras perguntas que me assaltavam, tentando antecipar os resultados do futuro, os quais, na verdade, eu nunca podia verdadeiramente adivinhar (mas alguém pode?). Então de que servia estafar a cabeça num esforço infrutífero? Quando chegasse o momento teria sempre que lidar com a realidade tal como ela se me apresentasse, e esta raramente convergia com aquilo que eu anteriormente idealizara como provável. Tinha, por isso, a ansiedade como minha companheira fiel; o receio de não ser capaz de lidar com as situações que fugissem ao meu controlo. Como seria possível viver tão constantemente projectada nas preocupações de um futuro inadivinhável e nas ruminações de um passado imutável sem experimentar a ansiedade? Mais uma companheira para cujo mal eu estava cega. Como recompensa de tão espartano empenho em tomar sempre as decisões mais sensatas e seguras para mim deixei muitas coisas por fazer, por experimentar, por arriscar, com medo de cair e magoar-me. Não tinha consciência deste medo. Ele era uma parte tão enraizada em mim que se tornava, por isso, parte de mim. E, em vez de o confrontar, chamava-o ignorantemente, e com um certo orgulho, de “a minha sensatez”. Não renego, naturalmente, a importância da sensatez, mas em demasia não é senão um eufemismo inglório do medo, que mais não faz do que pôr nos meus actos (ou na falta deles) uma etiqueta de inteligência, com legitimidade duvidosa. Nunca arrisquei, pois nunca ousei dar um passo sem o amparo da tábua de segurança, pelo simples gozo de mergulhar em mim própria, de me deixar envolver pela espontaneidade das emoções e pelo bem-estar de satisfazer a vontade do corpo, livrando-me do cansaço da razão, dos princípios redutores e, acima de tudo, do receio de falhar, e de não estar à altura de superá-lo. Por outras palavras, ser eu mesma, sem mais nada, fiel a mim mesma, como aos outros, e viver como se não houvesse amanhã, sem sentir culpa por estar feliz.

 

Mas nada disto surgiu do nada. Não acordei um dia com uma nova forma de encarar a vida debaixo da almofada. A terapia tem-me levado a desvendar tudo isto; as potencialidades latentes dentro de mim e as partes recônditas de mim que me eram pouco acessíveis ou desconhecidas, às quais eu vou, aos poucos aprendendo a dar lugar. Mas, acima de tudo, tem-me ensinado a arte da libertação. É como o sinto, uma libertação da minha própria casquinha de ovo. Ao longo dos últimos meses tomei consciência de mim mesma, da minha ansiedade, dos meus medos, daquilo de que sinto falta, do que preciso de combater. Há mais do que ansiedade, medo e ruído racional a construir a parede deste invólucro; há as raízes mais profundas destes mesmos males, as quais estou agora a começar a explorar. Mas há já uma abertura! Na verdade, não faço ideia do seu tamanho, mas sinto já um alívio das tensões constantes que lá dentro se concentravam.

 

Uma ferramenta preciosa que aprendi, em terapia, a usar chama-se “Respiração”. Confesso que um dos meus primeiros pensamentos de recém-chegada ao “psico-mundo” foi “Mas eu já sei respirar!”. Consciente, no entanto, de que, provavelmente, a minha terapeuta se estivesse a referir a algo mais transcendente do que simplesmente inalar ar pelas narinas, optei por guardar a “anti-epifania” para mim mesma, e poupar-nos a um pobre comentário 🙂

Respirei toda a minha vida, sim, mas nunca soube que o mais instintivo dos actos podia, também, ser feito de uma forma consciente, e com outros benefícios para além de simplesmente me manter viva. Estou a falar de relaxamento. Em situações de ansiedade, no dia-a-dia, permiti-me experimentar uma coisa tão simples como parar por uns momentos e respirar, fundo e pausadamente, mas estando concentrada em nada mais do que essa tarefa – sentir o ar a entrar e a sair do meu corpo e uma nova energia a surgir. Et voilá! Aprendi uma técnica simples e eficaz de alívio de tensões.

Uma outra ferramenta que aprendi, com a minha terapeuta, a utilizar chama-se “Presença”. Não consigo compará-la a nenhum objecto útil na nossa vida, pois é tão preciosa na maior parte do tempo, que seria injusto reduzi-la ao que quer que seja. A Presença é um desafio à altura de alguém cuja mente se entretinha a saltar, incansável, entre o passado e o futuro, tudo remoendo e antecipando, e que se esquecia de que o seu corpo não estava, afinal, em nenhum deles, senão aqui e agora. Tenho trabalhado na conexão que me faltava entre os elementos do trinómio cabeça, corpo e emoções; em aliviar a influência do primeiro e dar o merecido espaço aos dois últimos para se manifestarem, depois de anos de latência.

Aprendi a entregar-me ao momento presente, a dar valor ao que acontece aqui e agora, em todas as dimensões do meu eu; a viajar para trás e para a frente deste tempo apenas quando tal é necessário. Aprendi a diferença entre planear o futuro (viagem produtiva) e antecipar o futuro (viagem infrutífera). Aprendi a intersectar as fugas rebeldes da minha mente e a chamar-me de volta para onde a vida está, a cada momento, a acontecer. Aprendi, portanto, que “a cabeça serve para o que serve, e não serve para o que não serve”. Uma frase soberbamente simples, da autoria de Pere Portero, mas, talvez por isso mesmo, de uma simplesmente soberba sabedoria.

A Presença é, para mim, uma aprendizagem sempre em curso que tem ainda muito para me revelar, estou certa, mas que também já muito, e para melhor, me mudou. Posso dizer que disfruto já muitas vezes do conforto de não me preocupar com aquilo que simplesmente não posso controlar. O que não depende de mim para acontecer, não depende de mim, e pronto. E isso inclui não depender da minha energia desperdiçada. Tomar consciência disto em terapia foi decisivo na tomada de contacto com esta nova forma de estar mais saudável e mais plena. Esperava inicialmente que fosse exigir de mim um esforço tremendo calar o ruído da mente. Mas não. As primeiras experiências surgiram surpreendentemente rápido e espontaneamente. Que descanso maravilhoso experimento agora quando, perante situações que outrora me traziam medo e ansiedade, me encontro simplesmente em estado de aceitação do que há-de vir, disposta a agir no momento, e apenas no momento, conforme ele se me apresentar! O problema não existe aqui e agora. O sofrimento por antecipação, verbalizado nos incessantes “será que?”, “e se?”, “mas porquê?”, “e depois?”, “o que vai o outro pensar?”, deu lugar a um pensamento deliciosamente preguiçoso: “deixa vir, e logo lidarei com isso”.

Sorrio e agradeço à minha terapeuta por me ter ensinado também o lugar do corpo no meu eu, e a dar espaço à sua voz como parte indissociável do meu bem-estar. Ganhei a capacidade de o ouvir e de o respeitar tantas vezes quanto possível. Posso dizer orgulhosamente que estas são manifestações vivas de presença, e que sou hoje uma pessoa bem mais rica… em plenitude.

 

A terapia continua, desbravando agora outros caminhos, mas sempre com o mesmo objectivo último: o de me tornar numa pessoa mais feliz, conectada comigo mesma, com os outros e com o mundo.

 

Deixo aqui uma frase que é para mim uma grande fonte de inspiração e de libertação:

“Quem faz sempre o que já sabe permanece sempre o que já é”. (Adaptado de uma frase de Henry Ford).

Creio poder tecer-se belas mangas com este pano 🙂

 

 

 

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