Reflexões sobre a perda e o luto na actualidade

“ …Somente aquilo que morre, aquilo que chega a um fim, tem a possibilidade de se renovar”
J. Krishnamurti

sonia-anjos-thPerder alguém ou algo que é importante é, sempre, difícil, mesmo quando sabemos que “ faz parte da vida!” Na prática clínica chegam frequentemente pedidos de ajuda para aprender a lidar com a perda de alguém que é significativo, com a perda do emprego, com a perda de um animal de estimação ou com a perda em resultado de um divórcio/separação.

Curiosamente, o que me leva a escrever este artigo são pedidos de ajuda particulares…perdas na “meia-idade” (vamos considerar meia idade de 45 anos a 59 anos!). As perdas nesta fase da vida estão relacionadas com a forma como esta fase é encarada, com o seu significado ou seja com as crenças associadas à idade. O processo de luto varia de pessoa para pessoa e com a cultura. Como tudo, acho que podemos afirmar que a idade, o envelhecer, tem aspetos positivos e aspetos negativos… para todos nós. Até há algumas gerações atrás, ser “mais velho” era sinónimo de experiência, sabedoria e estabilidade económica, familiar, social e profissional.
Quando olhamos para as diferenças entre essas gerações é notório que as gerações atuais se sentem mais vulneráveis em termos de estabilidade profissional, familiar e social. Ou seja, hoje em dia não podemos dizer, como os nossos pais e avós, que existe um emprego para a vida, que existe um casamento/união para a vida… quer seja pela instabilidade financeira e a chamada “crise”, quer seja porque as pessoas correm em busca do que as faz feliz e isso implica decisões como mudar de emprego, de companheiro(a), de cidade…
Se esta nova forma de estar na chamada “meia-idade” abre muitas possibilidades também cria muitas incertezas. Quando se perde algo ou alguém, é o projeto de (da sua) vida que é posto em causa … A sensação será como se lhe tirassem o tapete debaixo dos pés, “o tapete” que dava segurança, que era até então o ponto de referência e o farol. Pode ser difícil! Sentimos que somos demasiado velhos para arranjar emprego, para arranjar alguém para estar ao nosso lado,… enfim, demasiado velhos para tudo!
Na verdade a idade pode criar alguns obstáculos…é a realidade… quem quer contratar alguém com 50 anos mesmo que essa pessoa e a sua experiência sejam uma mais-valia para a empresa? E agora onde vão conhecer pessoas novas?
Quando chega esse momento o importante é olhar para o passado e reconhecer a sua história de vida, a sua experiência, o seu crescimento, os seus recursos; depois olhe para o presente e percebe o que é importante, neste momento e agora projete-se no futuro e comece a escrever um novo projeto de vida, mais maduro certamente, com um novo significado e que abrirá caminho a muitas possibilidades. Utópico? Experimente…e daqui a 40 anos falamos!

2016-04-21T12:33:35+00:00 Abril 21st, 2016|Reflexões, Sónia Anjos|
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