Repensar a custódia, pelo bem das crianças

Autor: Lúcia Bragança Paulino

A criança entra no consultório com um olhar triste. Tímida, mal me olha nos olhos. Quando confrontada responde com monossílabos e por fim confessa: “Os meus pais divorciaram-se”.

O que se segue é um processo terapêutico onde se trabalha a sua confiança, a autoestima, bem como a posição na nova dinâmica familiar. O que surge muitas vezes no avançar do processo são as questões da custódia da criança.

Este é um dos grandes dilemas da prática clínica no contexto da psicologia infantil. Ao psicólogo é pedido muitas vezes que faça de juiz na tomada de decisão da custódia aquando de um divórcio.

As decisões tomadas pelos pais, pelos juízes, ou mesmo pelas crianças quando estas são confrontadas com a questão, estão presentes no nosso dia-a-dia e necessitam de mais reflexão por parte de toda uma sociedade em crise de relacionamentos duradouros.

Afinal, será que existe uma única figura parental com a qual a criança deverá passar a maior parte do tempo? Ou não deverá existir qualquer tipo de reflexão sobre a intensidade e qualidade das relações com as mães e os pais, para que se promova uma abordagem mais flexível e equilibrada na tomada de decisões?

Existem fortes evidências de que as crianças beneficiam bastante quando têm acesso aos dois progenitores, mesmo em caso de desentendimento. No entanto, é ainda um tema controverso e que implica muita negociação parental. Esta negociação é o grande desafio pós-divórcios e por vezes torna-se naquilo que mais prejudica a adaptação da criança à separação dos pais.

Muita da controvérsia actual nas leis da custódia infantil baseia-se em especulações, mitos e interpretações generalizadas sobre as relações mãe-filho e pai-filho.

Para facilitar uma prática responsável e políticas que minimizem os riscos no desenvolvimento da criança que mantenham relações pais-filhos saudáveis, deverá existir mais debate público, mais investigação na área da vinculação após divórcio e, acima de tudo, mais responsabilidade por parte de todos os intervenientes: pais e restante família, psicólogos, juízes e advogados.

2017-03-31T12:17:27+00:00 Outubro 19th, 2014|Crianças & Pais, Vários autores|