Será que as crianças que estamos a criar vão ser adultos resilientes? (Parte II)

Rita Fonseca de Castro

Rita Fonseca de Castro

Uma abordagem centrada na resiliência – Sugestões para promover a competência na adversidade

A abordagem centrada na resiliência veio substituir uma “orientação de riscos”, alicerçada no modelo médico, que intervinha sobre os factores de risco e tinha implícita uma noção de “fracasso”, como se uma falha algures no futuro estivesse pré-determinada. A abordagem passou a ser preventiva, em vez de remediativa, incidindo sobre as competências e recursos das crianças, procurando maximizar a probabilidade de estas virem a ter um melhor desenvolvimento, através da construção de uma “rede protetora” à sua volta.

Partindo desta perspectiva, pressupõe-se que todas as crianças podem melhorar o seu bem-estar, tomando decisões e resolvendo problemas de forma mais responsável para lidar eficazmente com desafios e com acontecimentos de vida stressantes.

Considerando que a criança se move, fundamentalmente, em três contextos ou níveis ecológicos: individual, familiar (ou equivalente) e extra-familiar ou comunidade, e que a resiliência se ergue sobre três “blocos” fundamentais: relações seguras de vinculação, auto-estima e sentido de auto-eficácia, conforme explicitado na primeira parte da abordagem deste tema, apresentam-se alguns exemplos/sugestões para fortalecimento da resiliência:

1. Tentar criar ambientes sociais pautados por:

– Existência de fortes ligações afetivas entre os elementos dos vários contextos sociais – entre pais e filhos, no seio da família, ou entre alunos e professores no contexto escolar – constitui-se como um dos principais factores determinantes do bem-estar emocional das crianças e adolescentes e do conceito que estes têm da família ou da escola. Estas ligações afetivas criam-se e mantêm-se através da expressão de sentimentos positivos, da ajuda e apoio incondicional e das oportunidades de participação em acções conjuntas.

Expectativas positivas e elevadas em relação às crianças e adolescentes, levam ao desenvolvimento de sentimentos de auto-estima, auto-eficácia, autonomia e optimismo. A convicção de que o seu filho, aluno ou cliente é capaz é uma condição fundamental para o seu sucesso nas mais diversas atividades e na forma como os problemas são enfrentados. Estas expectativas criam-se e mantêm-se através da expressão dessas mesmas expectativas, dos reforços positivos e dos elogios, bem como através do fornecimento de apoio necessário para alcançar os objectivos. Deve ser promovido o sentimento de valor pessoal e da crença de saber lidar com sucesso com os desafios.

Criação de oportunidades de participação em diversos contextos, através da criação de programas familiares semanais, mensais ou anuais, ou a participação na tomada de uma decisão importante no seio da família; da participação no planeamento curricular, na decisão das regras ou no encorajamento do pensamento crítico e do diálogo no contexto escolar; da participação em actividades/programas desportivos ou culturais, ou em outras áreas onde as crianças têm sucesso ou prazer, no contexto comunitário.

Controlo dos factores de risco, criando ambientes protetores e saudáveis, permitindo o desenvolvimento positivo das crianças é uma condição importante para o seu bem-estar. Contudo, não é possível criar ambientes livres de qualquer risco, até porque o risco também faz parte da vida e é importante para o desenvolvimento, experimentado através de sensações como cansaço, aventura, desafio, medo, fracasso ou frustração.

As estratégias para controlar o impacto dos factores de risco podem passar por alterar a exposição da criança à situação de risco/ameaça, ou o seu envolvimento com ela; alterar o perigo que esse factor representa; reduzir os impactos negativos da exposição, quando não tiver sido possível evitar o confronto com o risco, através da procura de apoio especializado (ex.: psicólogo) ou não especializado (pai, mãe, amigo).

2. O estabelecimento de relações de privilégio, pautadas pela continuidade e previsibilidade, sobretudo no caso de crianças que têm lacunas ao nível do estabelecimento precoce de relações de vinculação, que beneficiam especialmente da presença física dos adultos. Contudo, as crianças também precisam de ser capazes de estar sozinhas. Uma solução possível para esta aparente contradição é passar tempo com a criança no mesmo espaço físico, mas sem estar sempre envolvido na mesma atividade. Deste modo, a criança percebe que o adulto gosta de passar tempo com ela e que a aceita como ela é, e não apenas pelas coisas que fazem juntos. Para fomentar a capacidade de estar sozinho, também podem ser feitas algumas alterações no espaço físico, incluindo espaços onde as crianças podem estar sozinhas.

3. Implementar uma “linguagem fomentadora de capacidades”eu sei, eu sou capaz, eu posso – uma criança resiliente é capaz deste tipo de afirmações, que conduzem à assunção de que aquilo que fizer lhe vai permitir chegar onde pretende, com um inerente aumento do sentido de auto-eficácia.

Isto só é possível mediante a criação de relações de privilégio que aumentem a sensação de segurança da criança e reduzam a sua ansiedade, promovendo a exploração, bem como através da valorização das qualidades intrínsecas da criança.

4. Criação/manutenção de rotinas também é muito importante para fomentar uma sensação de segurança e estabilidade.

5. Partilhar atividades e sentido de humor com as crianças, mediante, nomeadamente, o recurso à arte – musico-terapia, pinturas, etc. – ou seja, atividades que promovam a exploração dos sentidos.

6. Encorajar a autonomia, através da introdução de pequenas tarefas de acordo com a idade das crianças (exemplos: ajudar a pôr a mesa; vestir-se sem ajuda do adulto).

7. Relembrando a conceptualização da resiliência em seis domínios: Base Segura, Educação, Valores Positivos; Talentos e Interesses; Amizades; Competências Sociais. Pode escolher-se uma, ou mais, destas dimensões, consoante se considere que será mais relevante para a criança. Deste modo, uma sugestão passa pela elaboração de um quadro semelhante ao que apresento de seguida, que permite estabelecer objetivos/metas concretas e delinear estratégias para os obter e aferir em que medida se está a caminhar no sentido correto.

Domínio

Nível ecológico em vão ser alvo de trabalho?

Como?

Quem vai ser responsável?

Base segura

Ex.: Família nuclear Ex.: Aumentando o tempo passado a brincar com a criança diariamente Ex.: Progenitores

Educação

Valores Positivos

   

Talentos e Interesses

Ex.: Comunidade Ex.: Adesão a uma actividade de tempos livres, como aulas de música ou um desporto Ex.: Pai ou Mãe

Amizades

Competências Sociais

2014-03-31T12:00:59+00:00 Março 31st, 2014|Crianças & Pais, Rita Fonseca de Castro|

Um Comentário

  1. Eduarda fazer 31/03/2014 at 14:38

    Muito bom o artigo! Como as crianças de hoje estão crescendo em um mundo onte elas as vezes tem muito mais informação que os pais, principalemnte na internet, acabam amadurence, as vezes, cedo de mais devido as cobranças e exemplos que tem das sociedade em todos os sentidos, e acredito que sim, que com toda essa avalanche de informações acaham sendo mais resilientes ainda crianças mesmo!

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