Tempos difíceis, em companhia terapêutica – Parte I

Cláudia D. Rodrigues

Cláudia D. Rodrigues

Convido-o(a) a ficarmos por um momento com algo difícil.

Bem sei que o convite não parece simpático, mas garanto-lhe que serve um bem intencionado e valioso propósito. É o que muitas vezes fazemos em Psicoterapia: permitirmos tempo e espaço a que experiências difíceis possam existir, tanto quanto possível, sem censuras ou julgamentos inibitórios. O propósito é o de treinar a resiliência, mas não só. Também serve a ensaiar e a reaprender a fazê-lo de forma diferente da habitual experiência que foi desenvolvendo ao longo da vida, ou que adquiriu num determinado momento traumático. Uma nova forma de viver uma determinada experiência difícil, deve ir além da experiência solitária que foi mal amparada e vivida de forma demasiado insegura,e além da habitual desorientação, confusão, ou conflito emocional persistentemente irresolúvel.

Só depois de uma experiência difícil ter a oportunidade de ser revivida de forma segura, bem acompanhada, e suficientemente prolongada no tempo necessário (i.e. sem excessos, desvalorizações, negações, ou fugas), só então é humanamente possível passar à etapa seguinte: averiguar as possibilidades de abrir os horizontes, respirar ar novo ou fresco, e então, depois encontrar-se na posse de mais recursos pessoais para novos passos a dar (“seguir em frente”) – ou por outras palavras: perceber mudanças significativas e portadoras de alívio. Mas só depois.

Há na vida uma obrigatoriedade inevitável para quem procura saúde e equilíbrio emocional: vivermos cada experiência relevante de forma algo “ordeira”. Isto é, não adianta tentar aldrabar, porque mais tarde ou mais cedo, de diferentes maneiras,tudo volta para nos desafiar. Neste sentido, “aldrabar” é quando passamos á frente de eventos significativos, mais tarde ou mais cedo tudo volta, colocando em causa a perspicácia, a agilidade emocional, a clareza mental, a sabedoria pessoal, a força vital, e a nossa capacidade para solucionar problemas pessoais – e, convenhamos, queremos estar à “altura”, para já ou para nos prepararmos para o próximo desafio da vida.

Vivemos num mundo acelerado demais para a nossa natureza humana, e isso traz-nos inevitáveis consequências perturbadoras da saúde mental, emocional, cognitiva, e relacional. Não podemos ser sempre tão rápidos como um pensamento, mas também nem sempre tão lentos como uma digestão difícil. Deparamo-nos com a necessidade de uma solução de compromisso, entre a mente e o corpo, entre o urgente e o demorado, entre eu e o outro, e por aí fora. Se queremos reparar aspectos da nossa personalidade, ou curar estados de alma e de ânimo, precisamos pensar psicoterapeuticamente, e isso aprende-se. É aqui que, na minha perspectiva a Psicoterapia deve estar ao alcance de todos: Não é preciso tornar-se Psicólogo, nem tirar uma especialização em Psicoterapia, “basta” aprender a pensar-se e a tratar-se de forma psicoterapêutica.

Nalgum momento da vida, não podemos evitar mais, e aí devemos experimentar um outro ritmo, o ritmo da cura psicológica e relacional, que deve ser suave, pausado, interativo, e continuado, para ser eficaz. Mesmo (e sobretudo) em momentos difíceis.No início, sem treino, pode exigir esforço extra, porém, com o tempo vamos ganhando uma estrutura mais hábil e intuitiva, e até o esforço passa a ser integrado como parte natural do processo terapêutico. Tal como na vida, não o podemos evitar, até certa medida. Há sempre algum tipo de esforço, tensão, ou mesmo angústia, resta aprendermos a viver melhor com isso, e perceber como pessoalmente retirar o máximo proveito dessa realidade inevitável à condição humana.

2014-04-29T12:43:44+00:00 Abril 29th, 2014|Desenvolvimento Pessoal, Psicoterapia, Reflexões|
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