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Terapia de casal – Coreografias interactivas e melodias emocionais (Parte I)

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Dança de casalEm qualquer casal os seus membros desempenham determinado papel predominante como, por exemplo, “o mais activo”, “o mais persistente”, “o mais independente”… sendo que a relação é definida por determinadas regras, implícitas ou explícitas, o que significa que muitas vezes não são conhecidas pelo casal, na medida em que não são exactamente consciencializadas pelos intervenientes.

Os papéis e regras que o casal segue são também alimentados pelas emoções, que vão favorecer tendencialmente certos comportamentos. Tudo isto fica mais complexo, dado que num casal existe uma interacção circular, o que quer dizer que os membros não só respondem ao feedback do outro como também o suscitam. E é desta forma que os casais vão desenhando e definindo as suas coreografias interactivas de eleição, sem que se assumam como protagonistas, já que não estão exactamente cientes das potencialidades do trabalho de autor de cada um.

Em terapia de casal focada nas emoções pretende-se primeiro fazer emergir o guião que cada um dos membros está a ensaiar, e que está a definir uma coreografia interactiva “meticulosamente treinada”. Pretende-se identificar a coreografia na qual o casal se encontra encurralado, já que não está a conseguir criar para além dela, desempenhando um espectáculo visto demasiadas vezes, e por isso já um pouco aborrecido, desinteressante ou mesmo irritante.

O terapeuta e o casal descrevem então as sequências problemáticas típicas recorrentes que perpetuam as dificuldades conjugais e que cristalizaram cada um numa posição na coreografia interactiva, “desenhando-se” assim uma espécie de mapa topográfico das interacções que irá ser útil a todo o processo terapêutico.

Após reconhecida a coreografia, pretende-se escutar atentamente a melodia emocional que o casal está a seguir e sobre a qual se desenvolveu a coreografia interactiva, o que corresponde a aceder às emoções subjacentes às posições de interacção de cada membro. Este ponto requer um trabalho profundo em que se pretende identificar as emoções de base, que são normalmente excluídas da consciência e que não são explicitamente incluídas na interacção. Para tal, é feito um trabalho de validação de emoções reactivas e secundárias, como raiva e frustração, sob a forma de culpabilização do outro, para se conseguir chegar às emoções que estão a ser minimizadas ou evitadas e por isso não faladas, como, por exemplo, medo de ser deixado ou vergonha por não se sentir suficientemente bom. Está-se assim a entrar num nível de trabalho que permite a explicitação da melodia emocional da coreografia interactiva, onde se percebe como o acesso a uma resposta emocional por parte de um compele outra resposta emocional por parte do outro, onde se identificam também as inseguranças que sustentam os movimentos coreográficos que cada um exibe, bem como as emoções de base que estão a alimentar e a organizar os movimentos coreográficos.

Ao longo deste trabalho os casais atravessam medos e ansiedades, como o receio da crítica ou resposta antecipada do outro (ex.: “Ela vai rir-se de mim se perceber como me sinto realmente”) e medo da imprevisibilidade da mudança da relação (ex.: “Estou um pouco perdido, nunca soube que te sentias assim e não sei o que fazer”). Estes são sem dúvida momentos muito difíceis, no entanto, as vantagens são maiores, já que os casais sentem um enorme alívio em processar e conhecer as suas emoções e os seus padrões relacionais.

Findo este trabalho, o casal consegue formular uma história coerente sobre os padrões que definem a sua relação, identificando como criam e mantêm as coreografias e reconhecendo as melodias emocionais que estão a seguir. Este trabalho também permite que o casal passe a estar envolvido num novo tipo de diálogo sobre emoções e comece a estar conectado de forma mais envolvente.

Quando o casal experimenta a coreografia de forma lúcida, alia-se contra a mesma, aproximando-se entre si, como se a coreografia se tornasse no “inimigo” e não o outro, o que permite que, embora os elementos do casal possam continuar zangados, não acedam à zanga da mesma maneira nem com a mesma intensidade.

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