Psicodermatologia?

À flor da pele, à flor dos nervos

 

PsicodermatologiaComeçamos pelo bom-senso, que é sempre um bom ponto de partida, mesmo para os temas da ciência.

Sabemos que o sistema nervoso se liga a todos os órgãos do corpo, interagindo, conversando, num diálogo que, quanto mais se conhece, mais se sabe que atenua qualquer fronteira que até há bem pouco tempo atrás se achava que separava corpo de mente. Aliás, esta fronteira tem vindo a ser tão apagada, que a componente não corpo começa a ter uma trapalhada de nomes, na tentativa de melhor se conseguir definir: mente, espírito, consciência e, se quisermos bater o pé na espiritualidade, até lhe podemos chamar alma… Há mesmo quem proponha abolir as fronteiras, decretar o fim desta dualidade histórica, e chamar ao todo a MenteCorpo ou CorpoMente – um ou outro ao gosto de cada um ou de acordo com o que, a cada momento, se entender que é o parceiro a conduzir a dança.

 

Então, temos uma interligação complexa e permanente entre aquilo que entendemos como a nossa parte emocional, “psicológica”, e a nossa parte corporal. Ora, sendo a pele o maior órgão do nosso corpo (ocupa uma superfície de 1.5 a 2 m2), decorre do bom senso assumir que terá ampla oportunidade para conversar com o sistema nervoso, certo?

 

E, de facto, os dermatologistas dos anos 70 começaram a perceber isto mesmo, a clínica informou a ciência e, em meados dos anos 80 começa-se a falar de psicodermatologia – o agregado de intervenções específicas em Psicologia/Psiquiatria que se aplicam às patologias dermatológicas. Ainda longe de ser consensual (até a própria definição da disciplina difere, oscilando entre esta explicação que acabo de lhe dar, e a definição como especialidade de dermatologia) e melhor implantado na Europa do que nos EUA, a psicodermatologia continua nos seus primórdios, com pouca investigação científica para a consolidar. No entanto, o paradoxo é que, por via do bom-senso, nem dermatologistas, nem psicólogos contestam que a pele está sujeita às mesmas “intempéries” do sistema nervoso, do que tudo o resto abrangido pela medicina.

 

Aliás, a ligação pele-emoções é até mais fácil de observar do que a ligação das emoções a qualquer outro órgão, por ser muito rápida. Duvida? Experimente pensar nalguma coisa que o deixe profundamente envergonhado ou embaraçado. Não cora de imediato? E não fica com pele de galinha debaixo de algumas emoções? Ou transpira de stress? E não se sente de cabelos em pé, de vez em quando?

 

A visibilidade da patologia dermatológica é um dos temas que torna a dermatologia tão apropriada à interligação com os ramos da psicologia clínica: ao ostentar a doença que tenho, sou sujeita ao escrutínio público o que é o mesmo que dizer que me sujeito ao estima, à discriminação, à rejeição e às diversas dificuldades relacionais que vêm com o desconforto com o meu próprio corpo.

 

Mas estou a adiantar-me… Porque quando se fala de Psicologia em ligação com Medicina, a tentação imediata é pressupor uma ligação causal: um problema emocional (ou uma forma de pensar, ou um hábito comportamental) que cria aquele problema médico. Esta foi uma moda de pensamento, que rapidamente alastrou junto do grande público, há uns 40 anos atrás, e que se mantém presente, porque os conceitos simplistas são sempre irresistíveis e lá vão perdurando no tempo, mesmo ao arrepio (uma demonstração da pele) da evidência científica.

Aliás, o termo “psicossomática” tem desaparecido do vocabulário científico, pela má fama que criou e necessidade de se ganhar distanciamento desta ideia de causalidade linear, que é a) perigosa, na medida em que afasta as pessoas dos tratamentos mais eficazes, por estarem na convicção de que o que precisam é de “resolver os seus temas” e b) culpabilizante, porque é uma forma que nos leva a pensar que “por culpa nossa” ficámos doentes.

 

Então o que é que os psicólogos fazem, nas suas incursões na dermatologia? A melhor resposta é: depende…

 

Começa logo por nos situarmos: a dermatologia abrange à volta de umas 3.000 doenças… Seria um absoluto disparate, reduzir esta elevada abrangência a um tipo de contributo por parte da Psicologia. E, depois, podemos pensar se estamos a falar em temas da psicologia envolvidos no surgimento da doença (o que é diferente de dizer que causam a doença!), no seu decurso, ou que resultem em consequências directas da doença.

 

Gatilhos

Conhecem-se, actualmente, várias doenças, dermatológicas ou não, que são desencadeadas por situações de stress (aqui num sentido muito geral, de desafio às capacidades e recursos pessoais do momento). O potencial para desenvolver a doença estará lá (capital genético) e as condições internas ou externas favorecem a sua expressão (activação epigenética).

Portanto, desde logo, há um potencial preventivo, no contributo da Psicologia Clínica – o mesmo, por exemplo, que é mais do que reconhecido para o acompanhamento de doentes cardiovasculares, com os quais os psicólogos trabalham estratégias para lidar saudavelmente com o stress inevitável à vida de todos nós, ajudando a diminuir o risco de um (novo) acidente cardiovascular.

 

O contributo para a prevenção chega a assumir proporções importantíssimas, como acontece na prevenção do melanoma, por sobre-exposição solar. É da área da Psicologia que nos chegou a demonstração que se as pessoas forem confrontadas com uma fotografia sua manipulada para mostrar os efeitos na pele da exposição solar excessiva, se tornam muito mais responsáveis na sua exposição ao sol, diminuindo o tempo, evitando as horas mais perigosas e aumentando o uso de protectores solares, reduzindo, assim, o risco de melanoma.

E, algumas dessas doenças dermatológicas funcionam por surtos – períodos durante os quais a doença se expressa, seguidos por períodos de remissão (exemplos comuns: herpes, psoríase). Nestes casos, e havendo uma componente de stress como gatilho de um surto, o trabalho do psicólogo é, também, o de equipar o doente com as melhores estratégias de regulação de stress.

 

Curso da doença

Todas as doenças cobram uma factura complicada à qualidade de vida, e que não se limita ao desconforto, dor, sofrimento da doença. Também há a perda de autonomia, a súbita consciência de que não temos o controlo sobre nós próprios, o do confronto com fragilidade da vida, o teste pelo qual passam as nossas relações íntimas, a forma como os outros nos entendem e se relacionam connosco, agora com o peso do rótulo de uma doença, contagiosa ou não,…

 

Além destes temas, todos eles objecto do trabalho de um psicólogo, e que podem fazer toda a diferença entre um sofrimento profundo e uma situação passível de ser gerida com um impacto com que conseguimos lidar, há ainda o stress que daí decorre e que acaba por ser um factor de agravamento da doença, muito particularmente se já for uma das patologias reactivas ao stress.

 

Portanto, poderemos dizer que os psicólogos trabalham ao nível da contenção dos “estragos” que a doença cria e ajuda num decurso potencialmente mais “suave” da expressão sintomatológica. Mas fazem mais do que isso, nalgumas situações: ajudam a tratar!

 

Um exemplo muito conhecido é o das verrugas, que reagem muito bem a uma intervenção simples de sugestão hipnoterapêutica. Aliás, a hipnose é a técnica por excelência para trabalhar com problemas dermatológicos, tão diversos como acne, eczema, comichões sem causa clara, etc.

 

Consequências da doença dermatológica

O que melhor distingue a doença dermatológica das restantes condições médicas é a sua visibilidade. Não há como esconder do mundo a sua existência (a não ser que se seja esquimó, ou que a área afectada esteja escondida, em abono do pudor). E isso traz problemas; alguns de que já falámos, mas, com uma nota especial aqui, problemas de autoestima, em que as pessoas se sentem despromovidas no seu valor pessoal, desgostosas com a sua aparência, diminuídas de alguma forma face aos outros.

Um exemplo em que isto é muito claro é o do vitiligo – a doença das manchas, em que a pele perde a pigmentação numa área muito variável do corpo – uma doença crónica, habitualmente progressiva e sem cura conhecida. O vitiligo é inofensivo, no sentido em que não é contagioso, não dói e não mata. E, no entanto, quem sofre desta doença vê a sua vida a mudar drasticamente, não tanto pelo estigma e discriminação por parte dos outros, que existe e é difícil, mas por se sentir profundamente afectado na forma como comparece perante os outros e se apresenta face à vida.

E aqui, a intervenção dos psicólogos é fundamental, para rever significados, narrativas pessoais, reflectir sobre propósito de vida e rever a forma como cada um constrói a sua identidade pessoal e o seu papel no mundo. Naturalmente, com técnicas muito diversas da hipnoterapia, que é usada nas circunstâncias em que se pretende mobilizar processos de reparação corporal que existem abaixo do patamar da consciência.

 

 

Quando é psicológico e não dermatológico

Até aqui, foi o âmbito da psicodermatologia vista por um psicólogo. Mas ficaria incompleta se não lhe falasse de uma outra categoria de intervenção, tal como vista pelos dermatologistas – a que compreende patologia que não é dermatológica, mas sim psicológica.

Curiosamente, são sempre estes os primeiros casos mencionados por dermatologistas, se lhes perguntarem como é que um psicólogo que se especialize em intervenções que têm por foco a dermatologia pode contribuir. E digo curiosamente porque não são temas de psicodermatologia, mas sim de saúde mental em geral – perturbações devidamente catalogadas como tal. A razão pela qual estão no topo da lembrança dos dermatologistas é porque é à sua consulta que tendem a aparecer, convencidos de que têm um tema dermatológico.

 

As situações mais comuns pertencem ao espectro obsessivo-compulsivo: um arrancar compulsivo de cabelos ou pelos, obsessivamente esgaravatar na pele, espremendo pontos negros, borbulhas, etc, ao ponto de criar diversas crostas e cicatrizes ou uma visão distorcida e exagerada de um qualquer defeito corporal. Este tipo de temas só pertence a dermatologia se a perturbação for tão severa que tenha criado já consequências dermatológicas passíveis de serem tratadas ao nível da pele ou cabelos, mas o seu tratamento é feito em sede de Psicologia Clínica e da Saúde, com estratégias de intervenção específicas.

 

Preciso de um psicodermatologista?

Não, não precisa. Porque não há 🙂

Deixe-me ver se consigo explicar isto direitinho. A psicodermatologia, tal como algumas outras áreas que conjugam um subconjunto de intervenções em psicologia clínica com temas médicos, não é uma especialidade, daquelas com direito a curso e diploma. É mais um agregado teórico-prático com um foco específico e que serve para dar uma base de comunicação entre profissionais de áreas muito diferentes, apurar as metodologias de intervenção mais eficazes, neste caso em patologias dermatológicas, e sobretudo criar um contexto de estudo científico.

 

Deixo-lhe um diagrama que o pode ajudar numa decisão, no caso de sofrer de algum problema de pele, e que lhe dá uma indicação genérica quanto ao tipo de competências que deve procurar num psicólogo, em cada circunstância. Mas deixo-lhe também uma nota importante, que deveria ser clara ao longo do que lhe fui dizendo, mas que nunca é demais reforçar: quem trata problemas de pele (e não só) é um dermatologista, não um psicólogo – é à especialidade médica de dermatologia a quem deve recorrer em qualquer suspeita de problemas ou doença. Depois, e de acordo com o seu diagnóstico, pode/deve acrescentar aos tratamentos indicados pelo seu dermatologista, a intervenção psicoterapêutica – seja para ajudar na prevenção de novas crises/surtos da doença, se o stress for um catalisador possível, seja para maximizar a eficácia dos tratamentos dermatológicos ou, ainda, para o ajudar a encontrar uma forma saudável e gratificante de ocupar a sua vida sem que a doença lhe roube o lugar central.

Decisão de intervenção psicodermatológica

 

Mas como é que o cérebro mexe com a pele?

Ao rever aquilo de que lhe estive a falar, apercebi-me de que não lhe falei claramente da ligação cérebro-pele. Porquê? Porque, como para a maioria dos temas de saúde, esta ligação não é absolutamente clara – conhecem-se pedaços da resposta desencadeada, aspectos particulares que fazem desencadear uma cadeia de acontecimentos neurobiológicos, mas a imagem global e definitiva ainda não é bem conhecida.

O que se sabe actualmente e sem margem para dúvidas, de um ponto de vista de demonstração científica? Sabe-se que a reacção de stress faz parte desta cadeia de acontecimentos que cria impacto nalgumas patologias dermatológicas (além de outras, claro). Exactamente como, para que pessoas em específico (ou seja, porque é que o stress excessivo e crónico propicia a doença cardiovascular numas pessoas, a gastrointestinal noutras, a dermatológicas noutras, etc) é algo que não se conseguiu ainda definir. Mas a si isso importa-lhe? Não deveria importar, porque as intervenções que permitem prevenir, melhorar e maximizar o tratamento médico, essas sim, são conhecidas. Não precisamos de perceber grande coisa sobre os mistérios da electricidade, se o que precisamos é saber onde está o interruptor que nos permite interromper a escuridão, verdade?

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-02-18T10:36:27+00:00 Outubro 15th, 2017|Corpo, Madalena Lobo, PELE|
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