Que tal programar o cérebro para a certeza?

Quando se trata de pensar no futuro, a nossa cabeça faz uns malabarismos interessantes entre realidade e fantasia. Quer ver?

Pense em qualquer coisa que tem a certeza que irá estar a fazer dentro de umas horas ou um dia. Qualquer coisa, desde que tenha a certeza que vai acontecer. Visualize essa actividade. Já está?

Então agora pense em qualquer coisa que gostaria que acontecesse, também a breve prazo, mas que acha que é pouco provável que aconteça. Já visualizou?

Deve ter reparado que ambas as situações lhe foram fáceis: o seu cérebro conseguiu produzir duas imagens mentais, a pedido, sem qualquer dificuldade, apesar de uma ser uma imagem de algo futuro mas real, e a outra ser uma mera fantasia, assumida como tal. E, o que é verdadeiramente interessante, é que não se baralhou! Sabe que uma é certa e a outra um devaneio. Como se o seu cérebro tivesse uma codificação própria para assinalar uma e outra e lhes colocasse rótulos de “possível” e “imaginação”, em que nós nos baseamos instintivamente para não andarmos por aí todos trocados e a ter conversas estranhas sobre o dia de amanhã. Para todos nós, que nos mantemos de pé firme na realidade, sem nos trocarmos entre o que é certo e o que é uma fantasia, esta capacidade automática e instantânea de rotular as imagens mentais sobre o futuro, garante a nossa estabilidade – em plena posse de todos os parafusos 🙂

Mas e se quisermos “aldrabar” o cérebro um bocadinho? Levá-lo a crer que o incerto é certo? Ora aí está algo que daria muito jeito quando, por exemplo, fazemos um ensaio mental: uma estratégia de visualização que serve para nos programarmos para uma experiência de sucesso, quer seja em desempenho social, profissional ou desportivo. Se esta estratégia de visualização fôr feita com a codificação automática da fantasia é como se nós nos estivéssemos a esforçar por dizer ao nosso cérebro que queremos ter um determinado comportamento (autoconfiança, tranquilo, de alto desempenho, etc) mas ele sabe que, lá no fundo, isso não passa de uma ideia fantasiosa. E não nos vai ajudar a concretizá-la.

Por isso, dá muito jeito conhecermos a chave de codificação muito única e pessoal com que o nosso cérebro assinala tudo o que sabe ser certo no nosso futuro. Com essa chave na mão, conseguiremos aplica-la àquelas situações a que nos queremos condicionar e aumentar a probabilidade de sermos bem-sucedidos. E conseguimos fazê-lo com um trabalho de submodalidades – algo que vem da programação neurolinguística, e que se refere às qualidades sensoriais que estão presentes naquilo que pensamos e visualizamos.

E eu vou explicar-lhe como pode fazer isso. Mas previno já que, nos seus primeiros passos, vai ter dificuldade em entrar no exercício, porque vou pedir-lhe que “mexa” com o que está na sua cabeça de uma forma que não lhe é nada habitual. Todos nós estamos habituados a “olhar” para a nossa actividade mental como conteúdo: estou a pensar isto, a recordar aquilo, etc. O que não estamos habituados é a considerar a textura, as qualidades sensoriais, com que esse conteúdo nos surge. São precisamente essas qualidades que contêm a totalidade ou parte da codificação com que nosso cérebro organiza a realidade (e a fantasia).

Vamos a isto?

Começo por lhe pedir para imaginar uma situação que tem a certeza que irá ocorrer nos próximos 15 dias e que sabe também como se irá desenrolar. Bons candidatos a isto são as acções regulares como o almoço de Domingo com os pais, a reunião diária com o seu departamento, passear o cão quando chega a casa, a sua rotina matinal, o trajecto casa-emprego, etc.

Numa folha de papel, desenhe-a como a vê dentro de si (por desenho, quero dizer um qualquer conjunto de rabiscos, ao nível das capacidades de uma criança de 3 anos). Vou fazer ao mesmo tempo, está bem? No meu caso, escolhi um passeio habitual de fim-de-dia num campo alentejano.

Submodalidades

Situacão A

Agora imagine uma situação, também nos próximos 15 dias, que também sabe que irá acontecer, mas que o seu desenrolar seja incerto. Por exemplo, combinou um almoço com um amigo que não vê há muito tempo, vai ter uma primeira reunião com um novo cliente, tem a sua avaliação de desempenho marcada, está a planear ter uma conversa séria com alguém próximo, a propósito de temas que não andam a correr bem, vai ao teatro no fim-de-semana, etc. Desenhe-a, também, noutra folha de papel.

Vou continuar a acompanhá-lo neste exercício – no meu caso, vou escolher uma reunião com uma empresa que não conheço e que me pediu para apresentar a oferta de formação da Oficina de Psicologia. Quando penso nisso, isto é o que vejo (enfim, o que vejo é um bocadinho mais elaborado, juro!).

submodalidades

Situação B

Para que seja útil, vamos mexer nesta última imagem mental, mudando um pouco o conteúdo para que represente aquilo que gostaria que venha a acontecer – mas apenas no que se refere à sua conduta, porque a forma como os outros reagem não está sob o seu controlo directo; não estamos a falar de disparates da lei da atracção, mas sim em ajudar o seu cérebro a trabalhar na direcção dos seus objectivos, de uma fora neurobiologicamente correcta.

Se é uma situação em que se imagina nervoso, ou atrapalhado, ou a reagir de forma pouco assertiva, etc, corrija-a mentalmente – mas mantenha o realismo. O oposto do nervosismo não é a arrogância e o oposto da sensação de incapacidade pessoal, não é vestir a capa do super-homem e sair a voar pela janela! Desenhe a sua imagem melhorada noutra folha de papel.

Depois de imaginar como me quero ver a funcionar na minha situação, isto é o que visualizo:

Submodalidades

Situação C

Então, agora já temos três situações num futuro próximo. Não vamos precisar da segunda imagem (a B). Precisamos da 1ª, que é uma é uma situação que tenho a certeza que vai ocorrer e sei com um bom nível de certeza como vou funcionar; e da 3ª, que representa algo que vai acontecer mas que não sei exactamente qual o resultado e como vou sentir-me e comportar-me nessa situação – apenas imagino o que gostaria de acreditar que aconteça.

Até aqui estamos alinhados?

Então agora vamos descodificar o que nos interessa. Coloca as suas imagens A e C lado a lado na sua cabeça, como quem abre duas janelas Windows no computador. E vamos compará-las nas suas qualidades, anotando todas as que forem diferentes para a situação de certeza.

Comparando as duas, e anotando no papel apenas aquilo que é diferente e específico à primeira situação, vá seguindo estas minhas perguntas:

  • Há uma diferença nas cores? Por exemplo, uma imagem é colorida e outra a preto e branco? Ou uma em cores fortes e garridas e outra em tons pastel? Ou uma cheia de cores e outra com muito poucas? Ou uma em cores tristes e outra em cores alegres?
  • Há uma diferença no brilho das imagens – uma brilhante, outra baça?
  • Uma diferença de ampliação de planos, com uma num grande plano sobre um qualquer elemento e outra como uma paisagem a incluir vários elementos?
  • Uma é estática e a outra comporta movimento, como num filme?
  • Tem a sensação de que as duas imagens que visualiza estão à mesma distância de si, ou há uma mais perto e outra mais afastada? Vê as duas como se estivessem do mesmo lado ou uma está, por exemplo, à sua esquerda e outra à direita, uma abaixo e outra acima?
  • São ambas horizontais ou verticais, ou uma está “ao alto” e outra “ao deitado”?
  • Uma está a duas dimensões e outra a 3 dimensões?
  • A perspectiva das duas é idêntica? Ou vê uma, por exemplo, vista de cima e outra vista de baixo?
  • Muito importante: nas duas imagens, é como se estivesse lá a ver a cena ou como se estivesse a vê-las de fora (vendo-se a si também)? Há uma diferença?
  • Há sons? Nas duas imagens? Com o mesmo volume? Com a mesma qualidade acústica?
  • Há sensações corporais presentes nas duas visualizações? A sensação de temperatura, por exemplo. Ou a sensação do corpo contra uma superfície ou do vento a bater na pele e cabelo, da roupa no corpo,…
  • E, finalmente, para aliviar esse seu sobrolho franzido de esforço e seriedade e o desfazer num pequeno sorriso: imagine que dá uma lambidela a cada uma destas imagens 🙂 Uma é amarga e outra doce? Uma picante? Uma saborosa e outra sabe mal? Salgada?

Fiz o exercício consigo e isto são as minhas anotações:

Submodalidades

Aquilo que ambos escrevemos é a nossa chave de codificação de uma situação a propósito da qual o nosso cérebro tem poucas dúvidas quanto ao seu realismo – é um ensaio mental do futuro, em que o senhor seu cérebro está muito seguro de si. Por isso, agora vamos agarrar na segunda situação, aquela que, lá no fundo, o seu cérebro acha que é uma fantasia sua, um “ai-quem-me-dera”, e codificá-la como a primeira, que é assim como mandar uma cartinha ao cérebro a dizer-lhe: “Vês que é verdade?”.

Por isso, vamos aplicar o código que obtivemos – isto é o que eu obtenho:

Submodalidades

Grave a imagem mental que obteve. Passe-a na sua cabeça várias vezes ao longo dos próximos dias, para aumentar muito a probabilidade de, chegado o momento, ter o comportamento que imaginou, porque terá o seu cérebro a ajudá-lo a construir a realidade tal como a viu previamente no seu cinema privado.

Sempre que tiver pela frente uma situação que sabe que vai provocar em si uma reação automática e habitual que não lhe interessa – acabrunhar-se perante uma figura da autoridade, enervar-se numa situação de avaliação, perder a cabeça durante uma discussão, desorganizar-se ao longo do dia,… – repita este exercício. Como gostaria de reagir? Como se vê quando se imagina a reagir dessa nova forma, adaptativa e útil face aos seus objectivos? Aplique as qualidades (= submodalidades) que codificam a certeza. Passe essa imagem modificada várias vezes pela sua imaginação. E… bem, e tenha uma vida gratificante, claro!

PS: Este é um exercício que costumo fazer no workshop Reparar Inseguranças, para apoiar a intervenção com base em EMDR e criar um maior efeito de mudança.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-02-18T10:06:36+00:00 Fevereiro 11th, 2018|Cérebro, Desenvolvimento Pessoal, Madalena Lobo|
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