Quero-Quero mas não chego lá!

O estranho caso do Quero-Quero mas Não-Chego-Lá

Hoje quero falar-lhe de todos aqueles desafios a que dizemos “não” ou a que nem mesmo damos qualquer hipótese, porque os pusemos na caixinha das “Coisas que eu não consigo, nem que a vaca tussa”.

Não de todos, claro, porque alguns deles, por muito talentosos que nos sentíssemos para lidarmos com eles, não tínhamos qualquer interesse no tema (eu não Quero-Quero ser capaz de perceber o misterioso universo da contabilidade, por exemplo…), nem a nossa vida andaria condicionada (não ser capaz de dar saltos mortais ou fazer a espargata, por exemplo, nunca interferiu com as escolhas que quis fazer na vida).

Do que lhe quero mesmo falar é de todas aquelas situações em que pensa seguir por ali, mas mete travões a fundo porque acha que não tem os genes necessários para lá chegar.

E como uma imagem vale mil palavras, para não ficarmos com muito texto, vou sistematizando com uns “bonecos”.

Mas…

UPS...

Isto é uma informação que tenho sobre mim própria. Verificada, para lá de qualquer dúvida, ao longo de umas décadas! O nó no estômago e aversão imediata que sinto sempre que tenho de desenhar são prova provada de que Não-Chego-Lá. E aprendi nalgum lado, com certeza, porque ninguém nasce a saber nada sobre si próprio ou sobre o mundo, por isso tudo se aprende. E quando se aprende com emoção à mistura – boa ou má, interessa pouco – aquilo que aprendemos fica de pedra e cal. E o que é mais: torna-se um pressuposto tão inquestionável como o de que os nossos pés vão encontrar o chão quando saltamos da cama de manhã.

Então, como é que alguém terá aprendido tão firmemente este tipo de coisas sobre si? Deixo-lhe um exemplo, que serve para se perceber a lógica por detrás de muitas situações.

O passado e o futuro

E perdemos oportunidades porque, como considera um povo primitivo indígena de uma qualquer parte do mundo de que não me recordo (memória enciclopédica também não é coisa que me assista, como pode ver), o passado está à nossa frente, porque o conhecemos e o futuro fica atrás de nós, logicamente, já que ninguém o vê (isto é de quem ainda não inventou os espelhos retrovisores…).

Algo de semelhante por detrás da expressão “presente recordado” com que Gerald E. Edelman – neurocientista, prémio Nobel- apelidou a nossa vivência actual.

E como chego lá?

E assim nos construímos, peça a peça, como somos hoje, acreditando que há coisas que conseguimos e outras que nos estão vedadas, por alguma maldição de fada madrinha ou falha genética, o que é quase a mesma coisa.

Então e agora? Agora que Quero-Quero? Porque hei-de ser menos, se posso ser mais? Porque hei-de de andar em pezinhos de lã a contornar os buracos negros das minhas competências – reais, imaginadas, pressupostas, idealizadas, fantasiadas, ficcionadas – só porque aprendi que não haveria de chegar lá?

Nós não desaprendemos. É um problema da engenharia original do nosso cérebro: veio sem aquele maravilhoso botão para apagar. Mas re-aprendemos. Sabe disso, verdade? Faz isso todos os dias ou quase. Sempre naqueles momentos de “ah!!!! Afinal não é assim, é assado”. E está reaprendido. Depois de praticar, claro. Mas apenas se achar que isso é possível. E se tiver a disponibilidade emocional/vital para o fazer – quem é que nunca teve momentos em que sentiu que o cérebro estava em greve e nada de bom ou produtivo ia acontecer dentro de nós enquanto ele não voltasse a funcionar decentemente (volta, cérebro, estás perdoado!)? E, por último ou talvez em primeiro lugar, nada disto importa se não estiver ligado ao que nos importa! Porque é que eu haveria de suar as estopinhas a rabiscar umas coisas que na pré-primária fazem melhor, se não fosse porque explicar a quem precisa como há-de dar a volta à vida é uma força motriz importante a correr-me nas veias?

Quero e chego lá

Actualizar as aprendizagens passadas

Irei falar-lhe um pouco destes 5 temas, mas devagarinho, um ou dois de cada vez. Para hoje, falo-lhe de uma forma possível – entre várias – de actualizar as aprendizagens passadas. É a minha favorita, talvez porque me entretenho com fantasias de preguiça, porque basta entregar o controlo ao organismo e deixá-lo fazer a sua magia, ou apenas porque me maravilha ver acontecerem mudanças rápidas mesmo à minha frente 🙂

Estou a falar de intervenções de EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing. Uma abordagem psicoterapêutica (e técnica de intervenção, também) que mostra ao cérebro o que se quer que ele reveja à luz de quem somos hoje, e se lhe pede que actualize o que for preciso e que esteja a interferir com a saúde ou bem-estar no momento presente.

Como é que funciona? Hummm… Cá entre nós, que ninguém nos ouve? Ninguém sabe verdadeiramente como é que funciona, ainda que hipóteses explicativas existam com fartura. Mas poucos de nós sabem explicar bem como é que funciona a electricidade – ou serei só eu? – e o que queremos mesmo é que, carregando no interruptor, se faça luz 🙂 E o EMDR é capaz de iluminar uma vida!

A base é, aparentemente muito simples ainda que qualquer psicólogo acreditado nesta abordagem seja rápido a dizer que só parece simples; tecnicamente, exige um terapeuta EMDR experimentado e preparado para tudo.

Assim, em linhas gerais muito simplistas, em que consta uma intervenção de EMDR?

Imaginemos que a falta de autoconfiança lhe anda a atrapalhar a vida. Sente-se sem garras para se atirar às oportunidades e desafios, vê-se pequenino entre os outros que o rodeiam, fraco de pernas para percorrer o caminho até onde quer chegar. Se escolhermos trabalhar com EMDR, vou pedir-lhe um exemplo recente de uma situação concreta em que isto aconteceu. E depois vamos “descascar” essa situação para chegarmos àquilo que são bons marcadores de memória: o que essa situação lhe ensinou sobre si, com que emoção é que a registou e com que sinais corporais.

Chegados a esses 3 marcadores, que funcionam como etiquetas nas caixas de arquivo das experiências vividas, usamos-los todos, ou apenas um ou dois, para viajar na memória, e encontrarmos os momentos mais importantes que ficaram arquivados na mesma caixa – neste nosso exemplo, da autoconfiança. E tem de ser assim, porque se nos puséssemos a pensar de uma forma muito (supostamente) racional, nunca conseguiríamos encontrar as experiências que temos arrumadas na mesma caixa – a memória tem lá o seu funcionamento muito próprio para arrumar as coisas. Encontradas essas experiências do nosso passado, seleccionamos a mais antiga de todas, idealmente antes dos 7/8 anos de idade, porque é de pequenino que se aprende o pepino :). Ou, então, seleccionamos a que mais o incomoda quando pensa no assunto ainda hoje.

E novamente, vamos à procura de marcadores dessa memória – essa situação concreta, aos 5 anos de idade, que a sua memória diz que está no fundo da caixa da autoconfiança, como é que é representada dentro de si, com que conclusões sobre a sua pessoa, com que emoções e com que parte do corpo mais envolvida?

E depois, então, começa a parte verdadeiramente estranha. Ainda não lhe tinha dito que o EMDR é estranho? Pois, é! Mas curiosamente é mais estranho para os psicólogos que aprendem a técnica do que para os clientes que querem ver os seus temas resolvidos 🙂 É que neste momento, acabam-se as conversas sobre o que foi e poderia ter sido, o que achamos ou deixamos de achar. Apenas permitimos que o cérebro trabalhe em paz e sossego, como muito bem entender, enquanto vamos fazendo estimulação bilateral alternada. Isso é o quê? É uma forma bonita de dizer que vamos obrigando a atenção a andar de um lado para o outro, da esquerda para a direita 🙂 Movimentando os olhos, ou ouvindo sons ora à esquerda, ora à direita, ou com pequenos toques laterais no corpo. A estimulação bilateral alternada é a pedra de toque do EMDR, aquilo pelo qual se tornou mais conhecido, por ser tão característico e… bem… estranho, já lhe tinha dito, verdade? Uma hipótese explicativa quanto ao motivo pelo qual funciona tão bem é que, teoricamente, ajuda os hemisférios cerebrais a comunicarem melhor ou mais depressa entre si; outra (particularmente quando é com movimentos oculares) é que assenta no mesmo mecanismo dos sonhos que, por sua vez, se presumem ter como função ajudarem-nos a integrar aspectos emocionais. Enfim, são algumas teorias em cima de outras teorias que, no fim do dia, não nos interessam nada, porque o que queremos mesmo é que a luz se acenda!

E acende. Após algum tempo (que varia muito, de menos de 1 hora a várias horas) com o cérebro a trabalhar sobre uma experiência, regra geral, chegamos a uma situação em que os indicadores deste trabalho mostram ao terapeuta EMDR que o cérebro se dá por satisfeito. Que já fez tudo o que entendia para reorganizar, actualizar e modificar aquilo que aprendeu nessa situação, e que estava a condicionar todas as aprendizagens que vieram a seguir.

Então, ajudamo-lo a gravar algo de diferente que pode aprender com essa situação e que seja uma “lição” mais útil e geradora de saúde e de crescimento pessoal. E ainda verificamos se todas as partes que o compõem concordam, e damos por terminado o trabalho sobre a memória mais antiga ou mais perturbadora.

Depois, fazemos o mesmo para outras experiências passadas que possam ser importantes e que estavam na mesma caixa da autoconfiança, e repetimos para as situações que hoje em dia o fazem sentir pequenino. E ainda repetimos para um futuro que não aconteceu na realidade, mas que o cérebro já imaginou como se fosse real.

Caso encerrado. Re-aprendizagem feita! Nesse mesmo dia, pode começar a observar mudanças em si.

Não é fantástico?

Resultado? Continuo sem saber desenhar, mas agora isso já não me incomoda, nem condiciona as minhas decisões 😉

IUPI

Curioso? Quer ver acontecer consigo? Veja a data do próximo dia em que, durante 4 horas iremos percorrer estes passos todos (e mais alguns) – experiência pura, nem um powerpoint para amostra, ou conversa de aquecimento. EMDR de fio a pavio sobre a sua história de vida. E traga papel e lápis porque vai assinalar a sua recuperação da autoconfiança com uns rabiscos que, como acabei de lhe demonstrar apenas exigem capacidades de desenho ao nível dos 3 ou 4 anos de idade 🙂

Disclaimers da praxe: o EMDR não é uma panaceia universal. Nada é. Funciona para as situações em que o fluir saudável e livre do presente está afectado por aprendizagens do passado que requerem actualização e, sobretudo, se foram traumáticas (isto é, o organismo entendeu que não conseguia lidar com os acontecimentos e isolou-os do resto, não os “digerindo” ou fazendo-o de uma forma que causa estragos). Além disso, há pessoas para quem esta forma de trabalho não parece surtir qualquer efeito. O que aliás é válido para todos os variados tipos de trabalho em psicoterapia; por isso, um psicólogo clínico deve ter conhecimentos abrangentes e especializados em mais do que uma abordagem terapêutica. Além disso, uma única sessão, ainda que muito alargada e equivalente a 4 sessões individuais tradicionais, é demasiado breve para resolver tudo ou fazê-lo em grande profundidade.

E agora que já disse todas a letras pequenas, posso dizer o que sei serem as letras grandes?

O EMDR é uma intervenção de elevadíssima eficácia e rapidez. Brutal! Está dito. Fico à sua espera 🙂

Não se esqueça: no meu próximo artigo vou levá-lo numa viagem a atitudes submersas capazes de mudar todas as probabilidades de “lá chegar”.

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-02-18T10:08:16+00:00 Janeiro 21st, 2018|Desenvolvimento Pessoal, EMDR, Madalena Lobo|
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