Sente-se sozinho?

Sente-se sozinho?Saiba que, na solidão, está muito acompanhado. Antes não fosse assim…

Comecemos por distinguir dois conceitos: isolamento e solidão. O isolamento é algo de objectivo – pode ser observado em termos de dimensão da teia relacional de cada um e da regularidade com que as pessoas mantêm contactos com os outros. A geografia, bem como os factores relacionados com a vida activa (desemprego, reforma, expatriação) são fortes determinantes de um maior ou menor isolamento social.

As redes sociais em particular, e a conexão web e mobile, de uma forma mais geral, vieram trazer uma nova oportunidade de manutenção de contactos sociais para pessoas que se encontravam mais isoladas, e é inegável que o seu contributo foi genericamente positivo.

Por exemplo, escrevo-lhe a partir da minha casa no baixo Alentejo, rodeada apenas de pastos de vacas, depois de ter comentado as fotos no Facebook de uma amiga que se encontra na cordilheira dos Andes, respondido a um whatsapp de colegas no Brasil, antes de uma reunião em videoconferência e de uma consulta com um cliente que se encontra em Inglaterra. É todo um mundo de tecnologia que nos permite mantermo-nos perto de quem nos é importante e com quem trabalhamos, impossível até há apenas um par de décadas.

Já a solidão é totalmente diferente – é um tema sentido, subjectivo, da pele para dentro, uma percepção individual. Rodeado de pessoas ou em isolamento físico, a solidão sentida por cada um apenas pode ser estimada pelo próprio.

No site da Oficina de Psicologia, temos um teste de avaliação da solidão  ao qual cerca de 500 pessoas respondem todos os meses, com resultados preocupantes:

Solidão

Naturalmente, não reflecte a generalidade da população: quem acede a um website dedicado a psicoterapia e mal-estar psicológico, e mais ainda quem escolhe responder a um teste para avaliar os seus níveis de solidão é quem já tem uma probabilidade elevada de estar em sofrimento emocional mas, ainda assim, é expressivo quando 77% dos resultados apontam para níveis de solidão muito pouco saudáveis.

E o tema é central à saúde humana. Somos uma espécie social com um cérebro social – tudo em nós está preparado para precisarmos de outros seres humanos com o mesmo tipo de necessidade que temos por ar, comida ou água – algo a que só há pouco tempo a ciência começou a levantar o véu e a criar áreas de estudo próprio, como o da neurociência social. Quando se instala o isolamento e a solidão, todas as dimensões da saúde física e psicológica se ressentem, das mais diversas formas. Por vezes, de uma forma surpreendente: por exemplo, a solidão afecta o sono, fragmentando-o. E o sono, já sabemos, afecta tudo o resto.

Mas, acima de tudo, a solidão pode matá-lo! Não há dúvidas, hoje em dia, de que a solidão e isolamento social encurtam significativamente a expectativa de vida, com um risco de mortalidade que supera muitos dos riscos mais conhecidos, como o da obesidade. Extraordinário, não? Sobretudo, se considerarmos que, nos meios científicos, já há quem fale numa epidemia de solidão e se recomenda que a solidão seja avaliada como parte integrante das consultas médicas de check-up, e seja colocada na linha da frente das preocupações de saúde pública. A solidão não se vê e, dado o seu impacto na saúde humana, deve ser avaliada de uma forma sistemática.

Entretanto, as famílias cada vez menores, com cada vez mais pessoas a viverem sozinhas, o peso da solidão na 3ª e 4ª idade, de vidas cada vez mais longas, o desbaste das conexões sociais pela redução de tempo livre ditado por vidas profissionais de longas horas, em contexto urbano, que aumenta o tempo isolado de trajectos casa-emprego, as correntes migratórias cada vez mais rápidas,… tudo contribui para deixar o indivíduo cada vez mais numa bolha de progressiva exclusão social. E não pense que é um tema exclusivo dos idosos – muito pelo contrário, a solidão é bastante democrática, não escolhendo idades, nem estrato socioeconómico.

As redes sociais vieram trazer um lampejo de esperança neste cenário. Por momentos, acreditou-se que iriam cimentar relações e construir pontes onde antes apenas o vazio poderia existir. No entanto, e apesar de existir muita contradição nos estudos publicados, tudo ainda muito fresco e recente, as redes sociais não parecem estar a conseguir melhorar a solidão, havendo mesmo indicadores de que a possam estar a agravar, bem como a deteriorar aspectos de saúde mental, contribuindo, por exemplo, para a depressão. Entre as muitas contradições e pontos cegos, é importante perceber que o tipo de utilização e o tempo investido nas redes sociais é determinante dos resultados a este nível. Muitas horas de investimento no Facebook, em detrimento de contactos pessoais, em redes demasiado alargadas para não serem superficiais, e baseadas numa comunicação de aparências, revelam-se prejudiciais. Já a utilização moderada das redes sociais, utilizando-as como mais um canal conveniente para manter um contacto caloroso e genuíno com quem, de outra forma, não se conseguiria comunicar, acresce ao bem-estar psicológico. No fundo, algo balizado pelo bom-senso.

Gerir a solidão é difícil. Sobretudo porque é um tema muitíssimo mais vasto do que a sua dimensão meramente psicológica, com bases culturais, sociais, políticas, ocupacionais e até de arquitectura. Mas cumprindo com a nossa análise e papel de psicólogos clínicos, aqui fica o nosso contributo para uma vida menos isolada e mais afastada da percepção de solidão:

  • Coloque as suas relações familiares e sociais no topo das suas prioridades: saber que são tão importantes quanto o ar que respira é um primeiro passo para não as descurar
  • Organize o seu tempo de forma a deixar um bloco diário dedicado ao convívio e contacto social: o almoço com amigos, o jantar em família sem distrações tecnológicas, os encontros com amigos ao fim-de-semana, um telefonema aos familiares distantes,… tudo vale!
  • Lembre-se que as relações se cultivam e cuidam no dia-a-dia – se apenas se lembrar de regar as plantas lá de casa de dois em dois meses, ou são cactos, ou não vão sobreviver
  • Lembre-se, também, que há um lugar para todos os níveis de intimidade: a família, o amigo do peito, os bons amigos, os amigos das saídas à noite e até os meros conhecidos. Todas elas são importantes e merecem a sua atenção
  • Procure situações em que a interacção social é importante, sobretudo se o tempo for pouco: em vez de cinema, prefira um jantar com amigos. O tempo é um recurso escasso, por isso não há como fugir às decisões quanto à melhor forma de o utilizar
  • Contribua: a generosidade, a gratidão e a sua expressão, o apoio aos outros são temas que a ciência já demonstrou serem fundamentais para a boa saúde física e psicológica, além de que promovem as boas relações interpessoais
  • Fale e partilhe o que lhe é importante. A reserva pode ser recomendável em certos círculos sociais, mas há círculos mais íntimos em que falar sobre o que nos deixa acordados à noite é extremamente importante para o bem-estar
  • E, finalmente, reflicta um pouco: a solidão que possa sentir decorre de falta de oportunidade real no contacto com os outros? Ou de hábitos de vida em que se foi deixando cair e que favorecem a retirada social progressiva, e que podem ser corrigidos? Ou de inseguranças suas em relação às suas competências sociais e que o levam ao afastamento, e que importa reparar?

E, claro, saiba que estamos por aqui, sempre preparados para conversar consigo!

Aprofundar!

Uma apresentação de John Cacioppo, à frente da neurociência social, e um dos mais importantes académicos no estudo da solidão

Madalena Lobo
Madalena LoboCEO; Psicóloga Clínica e da Saúde

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2018-02-18T10:07:23+00:00 Fevereiro 10th, 2018|Bem-estar, Madalena Lobo|

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