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Mitos da transsexualidade

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Marta Cuntim              A cirurgia de mudança de sexo do Bruce Jenner veio trazer a debate a transsexualidade e os mitos a ela associados. Há uma série de fatores que estão na base para o pedido de mudança de sexo físico. De uma forma geral, este pedido de mudança prende-se com o facto de as pessoas não se sentirem bem na sua pele. É viver uma mentira. Se nos colocarmos nesse papel, é como se nós, homens ou mulheres, estivéssemos presos a outro corpo, de mulher ou homem, e não nos identificássemos com nada desse papel. Usando o exemplo do Bruce: era um atleta e medalhado olímpico que nunca se sentiu bem na pele de homem. No final da sua carreira de atleta começou a fazer o tratamento hormonal para a mudança de sexo, mas as regras sociais e a cultura americana fizeram-no mudar de ideias e “manter-se” no papel de homem. Durante todos esses anos ia recorrendo a algumas estratégias para se sentir melhor, nomeadamente, cross-dressing (vestir-se de mulher) e quando viajava sozinho fazia-o como mulher.  Agora, ao fim de todos este tempo, e com 65 anos, decidiu finalmente dar início ao processo de mudança de sexo. Agora é Caitlyn!

Cada uma e cada um de nós sabe bem qual é o seu género. Sabemos o que somos: identificamo-nos, em geral, como mulheres ou como homens. É esta identificação profunda e pessoal que constitui a identidade de género de uma pessoa. Por regra, e com base num exame rápido aos genitais, é-nos atribuído um sexo na altura do nascimento. As pessoas transexuais são aquelas cuja identidade de género – esta identificação “psicológica” enquanto homem ou mulher – não corresponde ao sexo que lhes foi atribuído à nascença. Um homem transsexual tem portanto uma identidade de género masculina (e o sexo atribuído à nascença foi feminino); uma mulher transsexual tem uma identidade de género feminina (e o sexo atribuído à nascença foi masculino).

O sofrimento causado por esta discrepância entre a identidade de género e o sexo atribuído à nascença é designado por disforia de género. Algumas pessoas vivem a disforia de género de modo tão intenso que esse mal-estar se traduz numa dificuldade marcada de funcionamento social, ocupacional, ou noutras áreas importantes do seu desenvolvimento, cumprindo os critérios para o estabelecimento de um diagnóstico no domínio da saúde mental. Referimo-nos, por exemplo, a problemas de auto-estima, auto-imagem corporal, ansiedade e depressão.

Existem intervenções clínicas, devidamente estudadas e reconhecidas pela comunidade científica, às quais as pessoas transexuais podem recorrer. Os cuidados clínicos são sempre individualizados: o que ajuda uma pessoa a resolver o seu mal-estar causado pela discrepância entre o sexo atribuído à nascença e a identidade de género pode ser diferente do que ajuda outra pessoa. Este processo pode, ou não, incluir mudanças nas expressões do género e/ou mudanças corporais.

Os cuidados clínicos incluem, em geral, tratamentos médicos como terapias hormonais e/ou cirúrgicas que visam tornar os corpos e as expressões de género mais coerentes com a identidade de género e, deste modo, ajudar as pessoas a estarem mais confortáveis com a sua identidade. Por sua vez, as intervenções psicoterapêuticas procuram ajudar as pessoas a encontrar as estratégias para alcançar o seu bem-estar, qualidade de vida e desenvolvimento pessoal, no contexto de uma sociedade muitas vezes discriminatória.

O acesso aos tratamentos médicos, especialmente às terapias hormonais e cirúrgicas, geralmente é condicionado pela necessidade de aprovação por parte de profissionais de saúde mental – que indicam se a pessoa é, por um lado, elegível para o mesmo e, por outro, se está preparada para iniciar um tratamento específico naquele momento. Pretende-se, desta forma, assegurar que as pessoas transsexuais recebam o tratamento que mais se adequa à sua situação e que melhor possa reduzir o sofrimento causado pela disforia de género.

O processo de mudança de sexo «pode demorar entre dois a quatro anos», dependendo não só de consultas de acompanhamento psicológico, assim como da realização de cirurgias complementares como as mastectomias, mamoplastias ou histerectomias. A pessoa que faz a cirurgia de reatribuição sexual conta com uma equipa multidisciplinar de 11 elementos, com especialistas em psicologia, sexologia, endocrinologia, ginecologia, cirurgia plástica e reconstrutiva e urologia. Os psicólogos e sexólogos têm aqui um papel fundamental, na medida em que as suas avaliações e pareceres vão indicar quais os tratamentos a realizar em determinado momento, ao mesmo tempo que gerem e criam a estabilidade emocional necessária a todo este processo.

De salientar que hoje em dia já se começa a fazer alguma coisa. Nomeadamente, alguns países como a Austrália, Nova Zelândia e mais recentemente a Alemanha permitem que, à nascença, se use o termo sexo indefinido (X) para aquelas crianças que se encontram numa situação de intersexo. Isto é, nos casos em que o sexo não é bem definido à nascença e onde são necessários uma série de estudos cromossómicos, genéticos, hormonais e anatómicos, entre outros, essa pessoa em situação de intersexo poderá ver-lhe atribuído um sexo civil definido.

Orientações sexuais


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