Pais de crianças hiperactivas: treino de competências

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Sara Guelha

Sara Guelha

Sabia que se elogiar o seu filho, está a ajudá-lo a melhorar o seu comportamento e a contribuir para a sua felicidade? Lidar com crianças hiperactivas não é tarefa fácil, mas existem estratégias para melhorar as competências dos pais, na promoção de regras e bem-estar.  A intervenção centrada nos pais visa melhorar a auto-estima e humor da criança, melhor a qualidade da relação pais-filhos e diminuir o mal-estar familiar

 

Num breve enquadramento histórico, já havia referências ao Défice de Atenção na obra de Shakespeare, “Henrique VIII” e em 1890 William James, em  “Principles of Psychology”,  descreveu uma variante normal do carácter a que chamou “Vontade Explosiva” semelhante à actual PHDA. Barkley, em 1990 define-a como um distúrbio de desenvolvimento caracterizado por graus inapropriados de desatenção , sobreactividade e impulsividade as quais têm frequentemente o seu início na primeira infância, não simplesmente explicáveis por deficiências neurológicas, sensoriais, de linguagem, motoras ou distúrbios emocionais severos. Estas dificuldades aparecem tipicamente associadas a défices no comportamento orientado por regras e na manutenção de um padrão consistente de realização ao longo do tempo.

 

A intervenção foca-se na terapia cognitivo-comportamental centrada nos pais, na escola e na criança e, em alguns casos, conjugada com o tratamento medicamentoso. Neste artigo, o ênfase vai para a intervenção focada nos pais, com base na bibliografia de  Barkley (“Hyperactive children – A handbook for diagnosis and treatment”, cap. 8: “Training parents to cope with hyperactive children”).

 

É essencial aumentar a capacidade dos pais reforçarem, elogiarem e darem atenção ao comportamento apropriado da criança, uma vez que o valor reforçador do elogio dos pais de crianças hiperactivas é menor, provavelmente devido à história de interacções aversivas entre pais e criança. O Treino de pais consiste no ensino de técnicas simples, que podem ser aplicadas em diversas situações, e lidam com os problemas de comportamento de crianças hiperactivas, promovendo o desenvolvimento de comportamentos guiados por regras.

 

Os principais problemas apresentados pelas crianças hiperactivas são: a desobediência e a falta de auto-controlo. O treino de pais centra-se no comportamento de desobediência porque a maior parte dos problemas apresentados por crianças hiperactivas podem ser vistos como desobediência: a pedidos e a ordens; a regras estabelecidas pelo meio; ou a regras de conduta social.

 

As consequências para o comportamento da criança, quer positivas quer negativas, devem ser imediatas ao comportamento. Se o pai ou a mãe aplica uma consequência horas depois, a criança não vai perceber que esta se deveu a uma determinada acção no passado e perde-se o efeito pretendido.

 

As consequências, especialmente as verbais ou sociais, devem ser específicas. O elogio e a crítica devem-se referir ao comportamento específico em causa e não serem vagas, gerais ou referências pouco claras às próprias crianças ou ao seu comportamento geral. Além disso, devem ser adequadas ao comportamento e não basear-se no nível de impaciência ou frustração dos pais e os procedimentos destes devem ser consistentes: entre eles, nas várias situações e ao longo do tempo.

 

Os pais devem começar sempre por usar métodos positivos antes dos negativos. Face ao comportamento negativo da criança os pais devem: primeiro, definir o comportamento mais social ou desejável que esperam que a criança apresente em vez do comportamento inadequado; depois, devem formular um sistema de reforços positivos para aumentar a frequência desse comportamento; só então poderão aplicar métodos punitivos para reduzir a frequência do comportamento inadequado.

Outra noção importante é a de que o comportamento dos pais para com a criança é, em parte, função das acções da criança, e o modo como eles escolhem lidar com a criança vai, em parte, determinar as respostas subsequentes da criança. Os pais devem compreender a importância de analisar e antecipar as situações em que é provável que a criança apresente comportamentos indesejáveis e intervir no imediato.

É aconselhável que os pais dêem imediatamente um elogio à criança e sejam sempre específicos no seu elogio, dizer à criança que ela fez bem, não usar elogios “distorcidos”, tais como “Já era tempo de fazeres uma coisa bem feita, como limpares o quarto”, ou “Isso foi óptimo – porque não fazes mais vezes?”

Seguem-se algumas sugestões verbais para dar feedback positivo a uma criança: “eu gosto muito quando tu…”; “és realmente uma pessoa crescida porque…”; “óptimo!”; “bom trabalho”; “obrigada por…”; “sei que não digo isto tanto como deveria, mas realmente…”; “estou muito orgulhoso(a) de ti”. Pode-se também optar por um feedback físico, como um abraço, um sorriso, um beijo, um piscar de olho, um sinal com o polegar levantado ou até uma brincadeira combinada entre o pai e a criança.

Dar atenção ao bom comportamento do filho enquanto brinca é um hábito que deve ser adquirido ou estimulado aos pais. Não devem fazer perguntas nem dar ordens! Durante este tempo especial, devem observar a criança e, ocasionalmente, dar um reforço positivo.

 

Os pais devem estar conscientes de que o objectivo do programa não é “curar” a hiperactividade mas aprender a lidar eficazmente com os comportamentos de hiperactividade.

Nunca se esqueçam, “tudo é considerado impossível, até acontecer” (Nelson Mandela)

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