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Perturbação de personalidade esquizotípica

A palavra “esquizo” remete para o conceito de divisão. Que tipo de divisão? Neste caso, a divisão entre si e os outros.

Para compreendermos estas questões será importante falar um pouco sobre como se vê a sí próprio e vê os outros.

Se apresenta traços esquizotipicos sente que é diferente dos outros, que não encaixa na sociedade e nos grupos sociais. Sente que é especial.

Esta diferença manifesta-se na forma como pensa, como fala e como se apresenta. Tudo é, de certa forma, excêntrico e bizarro

Relativamente à forma como pensa, acredita que tem poderes especiais, capacidades diferentes. Que poderes são estes? Que capacidades são estas?

Muitas vezes acredita poder ler a mente dos outros (capacidades telepáticas), acredita que é capaz de prever situações futuras (capacidades premonitórias), que consegue apenas e só através do seu pensamento alterar a realidade, desenvolve ideias de referência, ou seja, acredita que o que acontece no mundo real tem alguma relação consigo, pode, por exemplo acreditar que o aparecimento do arco-íris foi um sinal de que algo de positivo ia acontecer na sua vida. Estas ideias não são crenças delirantes.

Pode apresentar alucinações auditivas ou visuais,distorções da percepção e episódios curtos de psicose.

Relativamente à sua linguagem, o seu discurso pode ter uma construção e um fraseado inabitual ou idiossincrático. Muitas vezes este discurso é vago, divagante, pouco objectivo, mas mantém sempre alguma coerência.

As respostas podem ser absolutamente concretas ou abstractas e as palavras e os conceitos são muitas vezes aplicados de formas inabituais.

Relativamente à apresentação, muitas vezes tem uma apresentação excêntrica, veste-se de forma bizarra, “sem condizer” e sem atenção às convenções sociais.

Portanto a excentricidade e a bizarria são as suas marcas distintivas.

Os outros são vistos como uma ameaça. Os outros são olhados com desconfiança e afastamento. Muitas vezes sofre de ideias paranóicas ligadas à perseguição, ou seja, sente que os outros o querem perseguir e que estão envolvidos em esquemas e teias para lhe fazer mal.

Esta desconfiança leva a que desenvolva relações de amizade muito superficiais, sem laços emocionais. Tenderá a ser muito solitário, preferirá objectos a pessoas e, geralmente apenas terá relações com a família nuclear.

Quem apresenta estes traços sente que não tem necessidade de relacionamento com os outros, em interacções sociais geralmente é discreto, apagado, algo apático, distante, desligado, funcionando mais como observador passivo. Este desligamento exterior é totalmente diferente da que vive interiormente perante situações sociais. Ansiedade essa que não diminui mesmo com o desenvolvimento de relações de maior proximidade.

Apresenta portanto muita dificuldade no relacionamento social, que naturalmente lhe provoca sofrimento e mal estar.

A sua apatia leva quase a pensar que não tem emoções, uma vez que não manifesta flutuações emocionais, quer as coisas corram bem ou mal.

Principais traços de uma personalidade esquizotípica:

  1. Ideias de referência (excluindo delírios de referência);
  2. Crenças bizarras ou pensamento mágico que influenciam o comportamento e são inconsistentes com as normas da subcultura do indivíduo (por ex., superstições, crença em clarividência, telepatia ou “sexto sentido”; em crianças e adolescentes, fantasias e preocupações bizarras);
  3. Experiências perceptivas incomuns, incluindo ilusões somáticas;
  4. Pensamento e discurso bizarros (por ex., vago, circunstancial, metafórico, super-elaborado ou estereotipado);
  5. Desconfiança ou ideação paranóide;
  6. Afecto inadequado ou constrito;
  7. Aparência ou comportamento esquisito, peculiar ou excêntrico;
  8. Não tem amigos íntimos ou confidentes, excepto parentes em primeiro grau;
  9. Ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a estar associada com temores paranóides, ao invés de julgamentos negativos acerca de si próprio;

Quando surgem os traços esquizotipicos?

Geralmente este padrão surge na idade adulta.

Qual a percentagem de sujeitos com traços esquizotipicos na população?

A percentagem é de aproximadamente 3%

Qual a evolução?

Raramente dá-se uma evolução para quadros de esquizofrenia ou psicose.

Qual a prevalência relativamente ao padrão familiar?

É mais prevalente entre os familiares biológicos em primeiro grau das pessoas com Esquizofrenia,  do que na população em geral.

Resumindo: Divisão é mesmo a palavra chave para compreender a Esquizotipia. Divisão entre si, que se vê como diferente, e os outros vistos como ameaçadores e alvos permanentes de desconfiança.

Etiologia-O que poderá explicar o aparecimento destes traços?

Infelizmente existe pouca investigação sobre o que poderá estar na base deste tipo de perturbação.
De qualquer modo, existem alguns estudos que apontam para a causa estar relacionada com problemas na relação primária, ou seja na relação entre o sujeito esquizotípico e os cuidadores primários, que geralmente são os pais.

Estes pais são negligentes em relação ao cuidado e promovem vinculações inseguras. A pessoa esquizotípica não sente segurança nem conforto na relação com os pais e começa a desenvolver estados de ansiedade.

Pode apresentar abuso físico ou sexual, o que o pode levar a ver-se como mau, indigno de amor e de cuidado e a desenvolver ideias persecutórias. Como defesa utiliza pensamentos mágicos, suspeitas e ideias de referência ou alucinações visuais ou auditivas. Geralmente usa estratégias de hipervigilância e desconfiança contínua.

Por norma, enquanto criança foi mais desinteressado, passivo e hipersensível à crítica.

É comum existirem quadros de bullying e rejeição por parte dos outros.

Portanto, na origem estará uma relação aversiva, negativa com o outro, seja os pais, ou mais tarde os colegas de escola. A relação aversiva leva ao desenvolvimento de uma desconfiança continua, traço característico desta perturbação.

Intervenção

Geralmente, se apresentar estes traços procurará a psicoterapia com queixas ligadas à ansiedade social ou a episódios depressivos.

O mais importante é estabelecer uma relação terapêutica baseada na confiança e na proximidade. Embora seja um enorme desafio para qualquer terapeuta, esta é verdadeiramente a chave do sucesso de qualquer intervenção com esta população. Uma relação de confiança, segura e estável poderá quebrar as ideias preconcebidas sobre os outros, enquanto fonte de ameaça.

Este será certamente o primeiro passo na direcção da intervenção clínica.

Muito do trabalho será baseado na redução da ansiedade social e na criação de relações de proximidade fora do contexto clínico.

Este dar-se ao outro sem receio será fundamental para uma inversão do papel dos traços esquizotípicos.

Tudo começa pelo “dar-se ao outro” no contexto clínico e mais tarde na sua vida.

Se sente que apresenta muitos destes traços não hesite em marcar uma consulta!

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