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Perturbação de Pós-Stress Traumático

A Perturbação Pós-Stress Traumático (PPST) é um problema de ansiedade que surge, como o próprio nome indica, depois de uma pessoa ter sido exposta a um acontecimento que constituiu um trauma psicológico.

Se já foi exposto a um acontecimento que constitui um trauma psicológico é possível que tenha desenvolvido um problema de ansiedade relacionado com essa situação. Habitualmente, trata-se de um acontecimento que foi uma ameaça à sua segurança ou à sua vida, em que terá sentido medo, desespero, falta de ajuda ou horror intenso.

Alguns exemplos de acontecimentos traumáticos:

  • Provocados por seres humanos: assalto, violação, abuso, tortura, guerra;
  • Provocados por acidentes: automóveis e transportes em geral, trabalho;
  • Provocados por fenómenos da natureza: incêndios, inundações, tempestades, terramotos.

O que os estudos da comunidade científica nos informam é que o número de pessoas a sofrerem desta perturbação ronda os 8% nos Estados Unidos da América. Existem, mesmo, alguns autores que começam em falar em proporções assustadoramente superiores. Embora gostássemos de lhe dar números sobre a realidade portuguesa, actualmente, ainda não existe informação quanto à prevalência na população em geral nos outros países.

Um factor que deverá ter em conta para a compreensão desta perturbação é que ela muitas vezes manifesta-se sem que todos os critérios de diagnóstico estejam preenchidos. Dá-se a esta configuração o nome de PPST sub-clínico e, embora possa passar despercebida, origina igual sofrimento à vítima do trauma. A PPST pode ocorrer em qualquer idade, porque podemos sempre estar sujeitos a um acontecimento traumático. Se este é o seu caso, a memória de um acontecimento traumático poderá ter começado a condicionar, em larga medida, o seu pensamento e desde então, é como se lhe tivesse sido retirado o significado da sua vida.

Falar de PPST significa ter de falar sobre trauma e, portanto, convém apresentar alguns esclarecimentos importantes:

  1. Nem todas as pessoas que passam por uma situação traumática desenvolvem PPST. As reacções a acontecimentos potencialmente traumáticos são diferentes de pessoa para pessoa, por isso, entre pessoas expostas a um mesmo acontecimento uma parte pode senti-lo como traumático e outra parte não o faz. Isto acontece porque um aspecto determinante do desenvolvimento da perturbação se relaciona com a avaliação, o significado e o impacto que o acontecimento traumático tem para passou por ele. No entanto, e apesar da recente investigação neste sentido, ainda não existem conclusões definitivas sobre aquilo que pode ser um elemento diferenciador entre essas pessoas.
  2. A vivência de situações traumáticas pode estar na origem de outras disfunções psicológicas, algumas potencialmente mais complexas e graves, pelo que, no caso de se rever nalguns sintomas de PPST, convém sempre passar por um diagnóstico efectuado por um psicólogo/psiquiatra qualificado, que possa determinar o que se passa consigo.
  3. Acontece, a algumas pessoas, passar pela sintomatologia de PPST, e conseguirem resolvê-la sozinhas. No entanto, e como não há forma de saber se será esse o seu caso, se está em sofrimento é aconselhável pedir ajuda rapidamente, já que existem intervenções eficazes para resolver esta disfunção.
  4. Actualmente, muitos autores defendem a existência de traumas de “t” pequeno, para chamar a atenção para um facto que a maior parte dos psicólogos conhece da sua prática clínica: não é preciso estar envolvido numa situação de catástrofe ou perigo de vida para se vivenciar algo como traumático. Basta que, de alguma forma e por qualquer motivo, o nosso organismo nos tenha entendido impossibilitados ou incapazes para lidar com uma dada situação. Se pensarmos bem, a nossa infância e adolescência é pródiga de situações assim: simplesmente não temos os recursos adequados para fazer face a algumas coisas que nos acontecem, ainda que, quando olhadas com os olhos de um adulto, elas surjam como bastante triviais. Dificilmente os traumas de “t” pequeno darão origem a uma patologia da ansiedade como a perturbação do pós-stress traumático, mas deixam a sua marca, por vezes significativamente desconfortável, e outras, moldando-nos de forma indelével em vivências desajustadas ou que nos desagradam. Também estas reacções a traumas de “t” pequeno podem e devem ser trabalhadas em contexto psicoterapêutico, sendo, frequentemente, resolvidos com recurso às mesmas técnicas que se utilizam para resolver as situações de PPST.Se sofre de memórias intrusivas (contra a sua vontade) e recorrentes do acontecimento, sentindo que este está a ocorrer novamente (sensação de reviver o trauma), normalmente designados flashbacks, se tem sonhos muito perturbadores que podem conduzir a insónias graves, se está muito vigilante com o corpo muito agitado, se evita situações, pessoas ou conversas que lhe façam recordar o trauma, é muito importante que procure ajuda para diminuir o seu sofrimento.

A. A – A pessoa foi exposta a um acontecimento traumático em que ambas as condições seguintes estiveram presente:

1. A pessoa experimentou, observou ou foi confrontada com um acontecimento ou acontecimentos que envolveram ameaça de morte, morte real ou ferimento grave, ou ameaça à integridade física do próprio ou de outros;

2. A resposta da pessoa envolve medo intenso, sentimento de desprotecção ou horror (Nota: em crianças pode ser comportamento agitado ou desorganizado).

B. B – O acontecimento traumático é reexperienciado de modo persistente de um (ou mais) dos seguintes modos:

1. Lembranças perturbadoras intrusivas e recorrentes do acontecimento que incluem imagens, pensamentos ou percepções (Nota: em crianças muito novas podem ocorrer brincadeiras repetidas em que os temas ou aspectos do acontecimento traumático são expressos);

2. Sonhos perturbadores recorrentes acerca do acontecimento (Nota: em crianças podem existir sonhos assustadores sem conteúdo reconhecível);

3. Actuar ou sentir como o se o acontecimento traumático estivesse a ocorrer de novo (inclui a sensação de estar a reviver a experiência, ilusões, alucinações e episódios de flashback dissociativos, incluindo os que ocorrem ao acordar ou quando intoxicado). (Nota: em crianças podem ocorrer representações de papéis específicos do acontecimento traumático);

4. Mal-estar psicológico intenso com a exposição a estímulos internos ou externos que simbolizem ou se assemelhem a aspectos do acontecimento traumático;

5. Reactividade fisiológica durante a exposição a estímulos internos ou externos que simbolizem ou se assemelhem a aspectos do acontecimento traumático.

C. C – Evitamento persistente dos estímulos associados com o trauma e embotamento da reactividade geral (ausente antes do trauma), indicado por três (ou mais) dos seguintes:

1. Esforços para evitar pensamentos, sentimentos ou conversas associadas com o trauma;

2. Esforços para evitar actividades, lugares ou pessoas que desencadeiam lembranças do trauma;

3. Incapacidade para lembrar aspectos importantes do trauma;

4. Interesse ou participação em actividades significativas fortemente diminuídos;

5. Sentir-se desligado ou estranho em relação aos outros;

6. Gama de afectos restringida (por ex: incapaz de gostar dos outros);

7. Expectativas encurtadas em relação ao futuro (por ex: não esperar ter uma carreira, casar, ter filhos ou um desenvolvimento normal de vida).

D. D – Sintomas persistentes de aumento de activação (ausentes antes do trauma), indicados por dois (ou mais) dos seguintes:

1. Dificuldade em adormecer ou em permanecer em dormir;

2. Irritabilidade ou acessos de cólera;

3. Dificuldade de concentração;

4. Hipervigilância;

5. Resposta de alarme exagerada.

E. E – Duração da perturbação superior a um mês

F. F – A perturbação causa mal-estar clinicamente significativo ou deficiência no funcionamento social, ocupacional ou qualquer outra área importante.

Aguda: se a duração dos sintomas é inferior a 3 meses.

Crónica: se a duração dos sintomas é igual ou superior a 3 meses.

 

Trauma

Felizmente, nunca passei por um trauma… Ou será que sim?

Existem muitas situações capazes de traumatizar o organismo humano. Talvez a melhor forma de pensar sobre isso seja recorrendo a uma situação física que todos conhecemos: você vai distraidamente a andar e bate com força com a perna numa cadeira. Ai! Certo? Um pequeno trauma físico – nos próximos dias, pode contar com uma senhora nódoa negra e com uma ligeira dor. Gradualmente, esta resposta do organismo vai passando, à medida em que as suas defesas naturais assimilam o sangue pisado e re-equilibram a zona traumatizada. Agora, imagine que a zona onde bateu, estava ferida. Ai, ai! Dói mais, talvez sangre e demora mais tempo a normalizar, obrigando-o, eventualmente, a um leve coxear nos primeiros dias. Mas vamos insistir um pouco mais nesta nossa conversa um bocadinho sádica: imagine o nosso caro leitor que ia a correr desenfreadamente quando tem o seu encontro imediato com a cadeira de madeira maciça… *#**&@*!!!!!!! E, desculpe, mas partiu a perna… Agora, além de doer muito mais, vai ter de contar com muito mais tempo de recuperação, durante o qual a sua qualidade de vida ficará afectada pelas limitações impostas pelo processo de recuperação e, infelizmente, acontece a alguns permanecerem com mazelas na perna que lhes recordam dolorosamente o momento em que embateu na cadeira, sobretudo se não tiverem sido cuidadosos no processo de recuperação e tratamento. Para se proteger da dor que alguns movimentos possam causar, vai ter tendência a proteger-se instintivamente caminhando de uma forma um pouco diferente, sendo mais cauteloso, evitando situações que o coloquem em risco de magoar a perna, etc.

O trauma psicológico é algo de muito semelhante: existe uma situação com a qual não estamos preparados para lidar e/ou superior à capacidade de reacção natural do dia-a-dia, e o organismo reage com dor, com uma tentativa de re-equilíbrio e com mecanismos auto-protectores que visam impedir níveis de desconforto maior. E, tal como nosso exemplo da perna, pode ser uma reacção que se regularize após uns dias ou pode acontecer que se tenha tratado de uma situação que acumulou a outras anteriores parecidas (ou não), dificultando o processo de assimilação, ou que tenha tido um tal impacto que as suas consequências vão permanecer se não existir uma intervenção que ajude o organismo a recuperar totalmente.

Os motivos pelos quais algumas pessoas reagem com sintomatologia traumática a uma dada situação que pouco ou nada afecta outras pessoas permanecem ainda largamente desconhecidos, bem como as razões para que uma situação chocante possa ter pouco impacto na vida de uma determinada pessoa que, no entanto, vai reagir de uma forma inesperadamente emocional a uma outra situação aparentemente pouco importante. Além disso, torna-se difícil que a maioria das pessoas consiga identificar que a forma como tem vindo a reagir emocionalmente se relaciona com um determinado acontecimento, porque, por vezes, as reacções emocionais (e mesmo físicas) são graduais e subtis, podendo ter início muito após a ocorrência da situação que esteve na sua origem – nalguns casos, anos. Não é de admirar, pois, que a maior parte dos nossos clientes que sofrem as consequências de uma reacção a stress traumático desconheçam e se surpreendam quando se apercebem da origem daquilo que têm vindo a sentir e pensar, e da forma como se têm comportado ao longo do tempo.

Por ser uma das metodologias mais eficazes que existem actualmente, formámos todos os psicólogos da Oficina de Psicologia (Lisboa) em EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing – e intervimos prioritariamente com esta forma de tratamento. Os nossos psicólogos encontram-se habilitados a intervir em todas as situações traumáticas, de “T” ou “t”, no âmbito mais alargado da intervenção psicoterapêutica ou de uma forma muito restrita para reprocessamento de um trauma específico.

Deixamos-lhe alguns exemplos de situações traumáticas que podem ter originado consequência negativas do ponto de vista emocional e de qualidade de vida e em que intervimos:

  • Violência doméstica
  • Violação e abusos sexuais
  • Acidentes de viação
  • Crime violento
  • Assalto ou roubo
  • Perda traumática de emprego
  • Morte de familiares
  • Interrupção involuntária de gravidez
  • Car jacking
  • Bullying
  • Rupturas emocionais e divórcio traumáticos
  • Procedimentos médicos invasivos e cirurgias
  • Doença crónica
  • Traumas relacionais

O acidente

Autoria: Nuno Mendes Duarte

.A valeta doutor. Eu lembro-me da valeta. Como é que posso falar do que não me quero lembrar. Posso acender este cigarro? Importa-se, doutor? Claro que não se importa… As pessoas não se importam de aturar quem sofre. Sim, porque eu sei que me está a aturar. No fundo, que é que quer de mim, ah claro, eu é que vim ter consigo. Engana-se. Eu não vim ter consigo. Eu estou aqui. Mas não vim ter consigo. Porque eu não consigo estar com ninguém agora… sou uma amálgama de destroços de carro embutidos em mim. Oiço berros de vidros estilhaçados e gemidos de ferro torcido que surgem do vento. A valeta. A valeta era uma poça de sangue. Cor de rubi, escarlate, sangue vivo que se esvai de um corpo que ainda corre para apanhar a vida, que já começou a fugir pela ladeira abaixo. Não sabe que isto é uma ladeira desde que nascemos. É sempre a descer e acaba a qualquer instante. Se fecho os olhos é isto que está cá. Uma valeta em tons de escarlate com cheiro a morte. Eu não me quero lembrar, mas tenho um filme a correr no limite do meu olhar. Um filme com ligação directa ao peito…

Imagine alguém sentado sobre o seu peito doutor, a fazer força. Agora experimente respirar quando o horror lhe sopra ao ouvido. O ar não entra, e há um choro sufocado que aperta ainda mais. Que vida é esta de sobressalto e tremuras? Eu não consigo pensar em entrar num carro. São varas verdes, trémulas e gelatinosas que me enchem o lugar das pernas. E o horror do sangue na valeta que não me larga a pele… não lhe cheira aqui a sangue, doutor?

A semana passada chorei todos os dias. Eu não chorava há dois anos. E pode não acreditar mas irrita-me tanto o silêncio como os barulhos que oiço. Deixo-me devorar por um choro de raiva e de medo? Porquê? Porque é que não o vi?

E, o desgraçado que atropelei? Eu podia ser um assassino se ele não sobrevivia. Sabe que quando fecho os olhos à noite e tento dormir, ando às voltas amarfanhado por um lençol de culpa que me abafa, me agita e me faz saltar da cama às 3 da manhã… não aguento estas noites sem sono. Desde o acidente que não vivo. Só sonho. Mãos no volante a guinar, e o olhar dele no meu, o pé no travão a tremer por causa do abs… Já sentiu o abs a violentar-lhe a perna, doutor? Nestes pesadelos ainda tremo com os sobressaltos do travão, um compasso de solavancos ritmados a sacudir o meu coração em chamas. O olhar daquele homem que sabe o que o espera, toneladas de aço em movimento que deslizam contra as suas pernas… O carro são pedaços de ferro ensanguentados. Estou a ouvi-lo com sirenes a abafar gemidos surdos de dor… eu não estou doido, mas juro que ainda o oiço a gemer. Ele jaz na valeta com cheiro a morte e escorre-lhe o sangue em tons de escarlate. Eu não me quero lembrar, mas preciso que isto me largue para voltar a ser livre. É por isso que estou aqui nesta sala, agora. Descobri que a culpa queima o estômago, ardendo em combustão lenta, desgasta e corrói o corpo até restar um esqueleto descascado do que se era. Eu era forte… sabe?

Agora pareço um caco arruinado que alguém deixou na soleira Invernos a mais… Gostava de ter os Verões de volta, que alguém me guardasse dentro de casa, me voltasse a pôr uma casca e me dissesse “Está tudo bem, aqui estás quente e seguro. A culpa não é tua.” Como é que o pensamento nos oculta a verdade? A verdade é que estava óleo e chovia… no entanto, só me ocorre pensar Devias ter feito melhor, António. Eu não me quero lembrar. Não vê esta bola de angústia que trepa pela minha garganta? São fragmentos de dor. São imagens, sons, emoções condensadas em cinco segundos de trauma. Cinco segundos que me estão a matar todos dias. Como é que me livro disto sem me lembrar…

Cada pensamento traz de volta tudo novamente como se estivesse ainda a guiar aquele carro… Maldito! Quem…? Quem é que…? Quem é que nos salva quando deixamos de acreditar… Oh, doutor… No que desejaria eu voltar a acreditar? Simplesmente, que a vida ainda faz sentido. Terminei este cigarro, estou nas suas mãos. Mas ainda não estive aqui consigo. Continuo lá, traga-me de volta quando puder e, por favor, feche a porta porque vem aí o Inverno.

Consultas diferentes do habitual

Quando se intervém com EMDR, nada do que possa estar à espera acontece… Trata-se de uma forma de trabalho em psicoterapia bastante diferente do habitual e que se baseia integralmente nos mecanismos saudáveis de recuperação do organismo, por isso, pensamos ser melhor explicar-lhe um pouco o que vai encontrar.

Falar é bom, ficar bom é melhor :=)

Os nossos clientes começam por estranhar o facto de se falar tão pouco durante uma intervenção em EMDR. Afinal, não se vai ao psicólogo para falar??? Bem, durante a primeira parte de levantamento do historial (para conhecermos o que se passou e qual o seu contexto) e de selecção de um ponto específico sobre o qual basear o trabalho, há pouco de diferente em relação às expectativas da maior parte das pessoas, porque se trata de uma conversa bem mais objectiva e dirigida do que aquilo que é habitual. Depois, há uma sequência de perguntas muito concretas e que se destinam a compor aquilo que se chama o protocolo: um conjunto de informação que se refere à representação interna total do acontecimento sobre o qual se vai trabalhar. E, quando começa o trabalho de reprocessamento propriamente dito, as palavras tornam-se muito pouco importantes e muito escassas: apenas interessa aquilo que o seu organismo entender fazer com a informação que arquivou de uma forma que lhe está a causar mal-estar.

Siga os meus dedos e observe o que acontece…

Na fase de processamento de informação, a mais conhecida nas intervenções EMDR pelo seu carácter invulgar, é quando se passa a maior parte da “acção”, ou seja, é quando o seu cérebro vai reorganizar a informação relativa ao acontecimento traumático, criando novas associações internas, mais úteis e conducentes ao bem-estar. O terapeuta vai ajudar o seu organismo a fazer isto com uma estimulação bilateral alternada visual, auditiva ou por toques – ao movimentar os olhos seguindo os dedos que o terapeuta movimenta à sua frente lateralmente, ou escutando sons alternadamente à esquerda e à direita ou recebendo pequenos toques nos joelhos ou mãos. Quando isto acontece (e apesar de ainda não existir uma resposta científica definitiva quanto aos motivos pelos quais se trata de algo tão eficaz) no contexto do protocolo que foi construído consigo, o cérebro é estimulado a desbloquear as memórias que estavam arquivadas de uma forma tóxica, na medida em que se relacionavam de uma forma disfuncional com outras memórias, produzindo sensações, emoções, pensamentos e comportamentos que o encerravam num círculo de mal-estar.

O seu cérebro é mais inteligente do que as nossas interpretações

Na abordagem em EMDR praticamente não há interpretações daquilo que se passa ou passou. Tratando-se de uma abordagem muito naturalista, baseada nos mecanismos de saúde do organismo humano, há uma confiança muito elevada naquilo que o seu cérebro vai fazer, desde que todo o protocolo esteja correctamente elaborado de acordo com os rigorosos requisitos técnicos deste processo. De facto, o mais comum é assistirmos a melhorias muito rápidas sem que cliente ou terapeuta saibam exactamente porque é que aquele reprocessamento da informação decorreu daquela maneira específica.

Passado, presente e futuro

Em EMDR fazem-se viagens no tempo! De facto, um tratamento nesta abordagem não está completo enquanto não se visitar o passado, fizer uma paragem no presente e nos projectarmos no futuro. As consultas começam, normalmente, com a sua queixa no momento presente: “Isto que me acontece não está bem”. O seu terapeuta, a partir daí, vai conduzi-lo ao passado, provavelmente em várias paragens, até encontrar a recordação mais antiga que se relacione com esta sua queixa actual (chamada de memória-origem). Assim que isso acontecer, faz-se o reprocessamento dessa situação e, depois, de todas ou algumas das recordações “passadas-mas-não-tão-passadas” que foram sendo encontradas a partir da sua queixa actual.

E, depois de toda a linha de continuidade do passado relacionado com o motivo que o trouxe até nós devidamente organizado dentro de si, encontram-se as situações no momento actual em que o problema se faz sentir e reprocessam-se essas situações.

Finalmente, projectam-se as situações futuras igualmente relacionadas com o seu problema actual e reprocessam-se da mesma forma. E depois? Bem, e depois, normalmente, desapareceu o problema.

 

As soluções

Existem, essencialmente, e de acordo com a investigação científica, três formas de actuar que registam boas taxas de sucesso: a psicofarmacológica (que requer acompanhamento psiquiátrico), a intervenção psicoterapêutica de abordagem cognitivo-comportamental e utilização de uma técnica denominada EMDR. É destas duas últimas que lhe vamos falar um pouco.

Abordagem cognitivo-comportamental

Visto que uma das características da perturbação é o evitamento de todos os estímulos que estejam relacionados com o acontecimento traumático, devido à ansiedade que provocam, é natural que o primeiro objectivo da terapia seja estabelecer uma relação de confiança e segurança com o cliente. Assim, poderá aprender técnicas eficazes que o ajudem a regular a ansiedade, quando esta se eleva em momentos de confronto com aspectos da memória traumática. Nesta fase, é muito importante a aprendizagem de mecanismos que regulem a sensação de segurança e que se construa a percepção de que o medo associado à memória traumática já não é necessário para proteger o cliente, pois hoje em dia ele já está livre da situação real em que viveu o perigo ou ameaça de vida.

O segundo objectivo é que se consiga expor a estímulos que recordem o acontecimento traumático de uma forma gradual, procurando que a ansiedade seja cada vez mais baixa a cada repetição do estímulo. Assim, algo que era percebido como muito ameaçador no início perde essa característica e o corpo e mente reagem com mais tranquilidade à presença da memória traumática.

O objectivo principal desta abordagem é que o cliente consiga o processamento emocional da memória traumática. Ou seja, de um ponto de vista emocional acredita-se que o cliente não terá conseguido integrar a informação do acontecimento traumático na sua história de vida.

A ocorrência desta desintegração leva a que os fenómenos de intrusão (pensamentos sobre o acontecimento traumático contra a sua vontade, pesadelos, etc…) aumentem, como se uma parte do cliente soubesse que aquela memória tem de ser arrumada, juntamente com as emoções que desperta. Este processo de integração na história de vida do cliente de uma experiência tão devastadora, como são as traumáticas, é sempre difícil… mas possível!

Por esta razão, na Oficina de Psicologia temos uma abordagem que respeita o ritmo do cliente e as suas necessidades de segurança e protecção visto que este é um processo que vai sendo construído em conjunto, entre terapeuta e cliente.

EMDR

Na utilização do EMDR, utiliza-se o protocolo clássico de processamento traumático, visando todas as recordações e estímulos associados ao trauma. O EMDR é uma ferramenta curiosa: apesar da intensa investigação que tem conhecido ao longo dos 20 anos da sua existência, de facto, pouco se conhece sobre a forma exacta como funciona. O que se sabe é que funciona, registando taxas de sucesso invejáveis e resultados surpreendentemente rápidos, mesmo de situações com uma duração de muitos anos e, aparentemente, resistentes a melhoria com utilização de outras técnicas.

Explicado de uma forma simples, começa-se a aplicação de um protocolo EMDR pelo levantamento sistematizado do conjunto de crenças, imagens, reacções emocionais e somáticas associadas à situação traumática. Depois, o cliente foca-se nestes elementos que compõem a experiência total do trauma, e que ficou “encapsulada” no seu organismo (um pouco como se tivesse ficado parada no tempo, a aguardar uma melhor oportunidade para ser trabalhada pela pessoa), enquanto o terapeuta aplica estimulação bi-lateral alternada. Pronto… A explicação estava a correr bem até aqui, certo? A estimulação bi-lateral alternada refere-se à estimulação provocada por movimentos oculares (o terapeuta ajuda o cliente a criar movimentos oculares laterais, de acordo com um certo ritmo e duração, movimentando a mão à sua frente, ou usando um pequeno aparelho com luzes que se programam para movimentos idênticos), sons (alternadamente, à esquerda e à direita, e, da mesma forma, de acordo com um certo ritmo e duração, mais frequentemente com recurso a uma máquina própria, denominada TAC Scan) ou toques/vibrações (também com o mesmo ritmo e duração, sendo os mais habituais, pequenas batidas nas mãos ou joelhos do cliente ou, ainda, com recurso à vibração de um acessório da TAC Scan). Repetindo várias destas sequências, o que se observa é que o organismo começa a “trabalhar” as memórias traumáticas, revendo as associações emocionais e intelectuais que foi fazendo ao longo dos anos, actualizando-as de acordo com o novo contexto, retirando-lhes o seu potencial avassalador. E continua a fazê-lo após as sessões EMDR, o que se nota por pequenas alterações que os clientes reportam, sobretudo ao nível do sono e sonhos e de novas sensações, positivas, que vão tendo de uma forma inesperada.

Uma nota de alerta: esta técnica apenas pode e deve ser aplicada por um psicoterapeuta credenciado para o efeito. Não hesite em pedir provas da credenciação, se lhe for proposta a aplicação de EMDR.

É natural que se tenha identificado com alguns dos sintomas enunciados se esteve perante um acontecimento traumático. Se já passou mais de um mês desde o acontecimento e o desconforto permanece, é importante que procure ajuda. Ficamos à sua espera, para iniciarmos o trabalho necessário a devolver-lhe o bem-estar na sua vida.

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