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Bipolaridade

Perturbação Bipolar

O que é, quem a tem, o que provoca?

Para muitos, a expressão “bipolaridade”, ou “perturbação bipolar” será pouco familiar. Se falarmos em perturbação maníaco-depressiva, a sua designação menos actual, muitos mais a conhecerão. Seja através de filmes, séries, livros ou contacto pessoal, a perturbação bipolar é figura frequente no nosso imaginário colectivo ou mesmo experiência de vida. Nesse contexto, pode dizer-se que figura no elenco de “bichos-papões” associados à saúde mental. Muitas vezes, é vista como uma condição que condena quem dela sofre a um estado de quase-loucura equiparável apenas ao da esquizofrenia, que não tem tratamento e será uma eterna incapacidade, caracterizado por uma montanha-russa emocional – ora num estado de euforia quase imparável e insuportável para quem com ela lida, ora na mais profunda melancolia e depressão. Aparece associada ao olhar esgazeado de um pico positivo (episódio maníaco) capaz da maior generosidade, mas também de imprudência e até violência, assim como ao rápido declínio para o pico negativo, uma depressão tão profunda que frequentemente conduz ao suicídio. Ainda assim, não são poucas as descrições de grandes artistas e cientistas que eram bipolares, e cujos picos positivos lhes deram o “empurrão” para a fama e a glória. Na verdade, a perturbação bipolar não será tão monstruosa quanto as suas caracterizações mais pessimistas a pintarão, nem tão romântica e inócua quanto nos pode fazer crer a obra deixada por grandes homens e mulheres que dela padeceram.

Independentemente da avaliação de gravidade que se possa fazer dela, a perturbação bipolar tem consequências bem reais na vida de quem dela sofre. As relações com os outros podem tornar-se um pesadelo. As oscilações de humor conduzem ora a conflitos, ora a retracção, causando frequentemente que as pessoas queridas se afastem por não compreenderem o que se passa com a pessoa e não conseguirem lidar com isso. Torna-se, também, difícil manter um emprego. Quando existe um pico, seja positivo seja negativo, a produtividade no local de trabalho sofre variações muito grandes, e a capacidade de tomar decisões fica grandemente afectada. No seio da família, é frequente a confusão e o medo. A alegria inesperada tem potencial para gerar surpresa, bem como conflitos e decisões repentinas com consequências graves, assim como os picos negativos afastam os membros da família e lançam nuvens sobre o ambiente familiar, sendo que a alternância entre estes dois pólos pode ser uma combinação explosiva. E se os picos positivos podem levar a gastos irresponsáveis, comportamentos sexuais de risco e situações de perigo para o próprio (pela ausência do medo), os picos negativos podem conduzir a estados depressivos profundos que, no limite, conduzem a tentativas de suicídio. A taxa de suicídio entre pessoas com perturbação bipolar, de acordo com as informações mais recentes, situa-se entre os 10 e os 15%.

Por todas estas consequências, a perturbação bipolar tem vindo a ser alvo de cada vez mais atenção.

Alguns números:

  • 10-15% das pessoas com perturbação bipolar cometem suicídio
  • 10 – 20% das pessoas apenas têm a fase maníaca
  • Para cerca de 90% das pessoas com bipolaridade, trata-se de uma situação recorrente
  • Cerca de 60-70% dos episódios maníacos ocorrem imediatamente antes ou após um episódio depressivo
  • A maioria das pessoas retoma um nível normal de funcionamento entre episódios enquanto alguns (20-30%) podem manter alguns problemas de estabilidade e funcionamento.
  • Pessoas com familiares directos com perturbação bipolar I têm um maior risco de vir a padecer de uma perturbação do humor: 4% a 24% para perturbação bipolar II ou depressão major e 1%-5% para perturbação bipolar I
  • Dos adolescentes com episódios depressivos major recorrentes, cerca de 10-15% vão desenvolver perturbação bipolar

De facto, a perturbação bipolar é uma das perturbações mentais mais actuais no seio da discussão científica, e tem sofrido grandes avanços na forma como se define. É de uma complexidade extrema, sendo um dos mais difíceis diagnósticos em saúde mental. Embora haja manifestações muito fortes e evidentes da perturbação, são muito frequentes manifestações mais moderadas que podem passar despercebidas. O que a distingue, acima de tudo, é a presença de sintomas “maníacos”. Sendo a mania uma palavra familiar, falamos aqui de algo muito diferente da “mania das limpezas”, da “mania de dizer mal” ou da “mania de embirrar”. Falamos de sintomas como uma disposição anormalmente expansiva, positiva ou irritável, da redução de necessidade de dormir, de um aumento desmedido e repentino da auto-estima, que frequentemente roça a grandiosidade, de picos de intolerância à crítica à frustração, de períodos de produtividade excessiva e inesperada, de um discurso “saltitante”, acelerado e pouco coerente, de distractibilidade aumentada, ou mesmo de comportamentos de risco como gastos excessivos, picos de promiscuidade sexual, ou a ausência de percepção de perigo. Durante um pico maníaco, sentimo-nos os reis do mundo, como se nada nos pudesse tocar. Durante um pico positivo, nem todos estes sintomas estarão presentes. Nem todos eles estarão facilmente evidentes, e igualmente intensos. Aquilo que sabemos é que estes se agrupam nesta perturbação, e é muito frequente alternarem com estados depressivos (ver secção “Depressão”) e com momentos de normalidade, em que tudo está como esteve antes de surgir a perturbação. Estes momentos podem variar na sua duração e no tempo que decorre entre cada um deles. E este é um dos aspectos que torna difícil o diagnóstico. Apesar desta dificuldade, a maioria dos estudos tem vindo a estimar que cerca de 1% da população mundial possa sofrer desta perturbação. A idade habitual de aparecimento da perturbação bipolar situa-se na casa dos 20 anos, início dos 30. No entanto, estudos recentes têm vindo a apontar um número crescente de casos na adolescência.

Existem dois tipos de perturbação bipolar:

Bipolar I – diagnosticada quando a pessoa teve, pelo menos, um episódio maníaco ou misto, normalmente com um episódio de depressão major. Afecta uma proporção idêntica de homens e mulheres, aproximadamente 0.4 a 1.6% da população.

Critérios de diagnóstico - Bipolar I...

Bipolar II – diagnosticada quanto a pessoa teve um episódio de depressão major com, pelo menos, um episódio hipomaníaco. Afecta maior número de mulheres do que homens, em cerca de 0.5% da população.

Critérios de diagnóstico - Bipolar II...

Face a este quadro, é provável que dê por si a reconhecer pelo menos alguns destes sintomas em pessoas que conheça, ou de quem tenha ouvido falar. E é natural que se pergunte de onde, afinal, vem esta perturbação. O que sabemos é que esta é uma perturbação que tem forte influência genética, sendo mais frequentes os casos de perturbação bipolar em famílias onde existe um historial de bipolaridade. Ou seja, na raiz da perturbação estão factores psicológicos, mas também uma grande influência da forma como o nosso organismo, particularmente o nosso cérebro, trabalha. Estes dois factores actuam em conjunto para produzir os sintomas que conhecemos. Se, por um lado, esta informação pode tornar a perspectiva do tratamento assustadora pela sua complexidade, por outro permite-nos identificar um número maior de recursos e intervenções de que dispomos para combater a perturbação bipolar. Olhemos, então, para os meios que temos ao nosso dispor.

 


Como intervir?

Um dos aspectos a que é importantíssimo atender quando lidamos com a perturbação bipolar é que, pela sua natureza, é uma perturbação que se caracteriza por frequentemente dar origem a recaídas. Seja pela dificuldade em manter a regularidade na toma medicamentosa, seja pela forma como se manifesta na nossa biologia cerebral, um dos aspectos da definição desta perturbação que reúne unanimidade é a sua recorrência ao longo da vida. O que contribui grandemente para o impacto que tem na vida de quem sofre de perturbação bipolar gerando, frequentemente, ansiedade relativamente ao futuro, baixa auto-estima, relutância em assumir compromissos de longo prazo e uma grande instabilidade no contexto familiar. Sabemos hoje que, cada vez mais, a perturbação bipolar é controlável. Um grande parte de garantir esse controlo passa por assegurar a prevenção da recaída e, particularmente, a adesão ao tratamento. Vejamos, então, de que forma procuramos controlar a perturbação bipolar.

Psicofarmacologia

Esta área de intervenção é uma das que mais beneficia de um trabalho próximo entre médico psiquiatra e psicólogo. A evidência da raiz biológica e hereditária da perturbação bipolar tem suscitado muita investigação médica. Actualmente, a Medicina dispõe de medicamentos que permitem um controlo cada vez maior da sintomatologia quer maníaca, quer depressiva, com um grau cada vez menor de efeitos secundários e transtorno para o consumidor. O grande obstáculo que se coloca a este tratamento prende-se com a adesão ás recomendações médicas. Uma das principais causas de recaída prende-se com a descontinuação da toma medicamentosa. A estabilização confunde-se frequentemente com a cura, e são frequentes as desistências. A competência para delinear este tipo de tratamento reside por inteiro no psiquiatra. No entanto, é importante assegurar que há continuidade no tratamento, evitando a recaída, ao mesmo tempo que é necessário desenvolver competências para lidar com a perturbação a vários níveis: na vivência pessoal, emocional de quem dela sofre; no contexto social e profissional em que se insere; e na vida familiar. Daqui decorre a enorme importância de um trabalho em estreita colaboração entre o psiquiatra que prescreve o medicamento e nós, psicólogos, que procuramos desenvolver estas competências.

Nesse sentido, a nossa intervenção faz-se de 3 formas:

Acompanhamento individual

Este é o espaço reservado exclusivamente para quem nos procura. Nele, procura-se criar um espaço seguro, no qual haja espaço para acompanhar e trabalhar o impacto emocional e comportamental que a vivência da perturbação bipolar tem em cada um. Sendo uma perturbação de diagnóstico complexo, é também uma que tem manifestações diversas, com impactos diversos, em quem dela sofre. Nesse sentido, é importante dedicar-se tempo a compreender de que forma particular ela se manifesta em quem nos procura. Este trabalho permite alcançar um conjunto de objectivos. Em primeiro lugar, há que reconhecer o sofrimento de quem vive com a perturbação, e acompanhar o percurso da pessoa até à pacificação com esse sofrimento, de forma a poder preveni-lo. Para o fazer, em segundo lugar, há que detalhar a forma como cada pico se gera. Antes de cada pico, tem se vindo a demonstrar que existem um conjunto de pensamentos, emoções e comportamentos que são sinais de aviso para a possibilidade de ocorrência de um pico. Identificar os sinais de aviso, particulares a cada pessoa, que se revelam antes de um pico, permite-nos trabalhar um terceiro passo: o que fazer quando em risco de início de um pico. Este espaço é, também, um espaço a recorrer em caso de crise. Ou seja, caso haja eminência de um pico, ou esteja a existir uma dificuldade particular na adesão à medicação, o seguimento individual é um recurso a que a pessoa pode aceder no sentido de dar resposta a estas mesmas dificuldades.

Acompanhamento em grupo

O acompanhamento em grupo é uma intervenção que em muito enriquece o trabalho terapêutico. Um dos objectivos do trabalho neste contexto é a familiarização com o que esperar da sua vida quando confrontado com um diagnóstico de bipolaridade. Este é um diagnóstico que será, tendencialmente, muito assustador. Pela natureza crónica da perturbação, pela forma como pode afectar a sua vida, pela incerteza que acarreta, pelo medo da figura do suicídio como uma consequência irreversível. Por todas estas razões, é essencial que haja uma normalização e esclarecimento do que se pode esperar e fazer. Para o conseguir, é importante a partilha de informações concretas e realistas acerca do curso da perturbação ao longo da vida. Acerca de quais os sintomas que pode esperar, e quando. Acerca de que tipo de comportamentos e acções deve adoptar em cada momento, e em cada contexto da sua vida. Acerca do carácter recorrente da perturbação, do que representa a recaída (apenas uma etapa, e não uma catástrofe irreversível), e de como lidar com ela. Em suma, acerca de todos os aspectos que dizem respeito à perturbação, sem dramatizações nem exageros, e sem criação de falsas expectativas. O B-A-BA da bipolaridade. Um segundo aspecto importante do trabalho em grupo diz respeito ao espaço privilegiado de partilha que nele se gera. Quando trabalhamos em grupo, temos a oportunidade de entrar em contacto com outras pessoas que partilham do nosso sofrimento. Enriquece-nos a possibilidade de aprender, com a experiência uns dos outros, novas estratégias e possibilidades para a vida que trazem a alguém em que nos revemos bons resultados. E é profundamente apaziguador e recompensador podermo-nos aperceber que não estamos sozinhos, não somos os únicos a sofrer como sofremos, e podemos encontrar e dar apoio a outras pessoas que, como nós, sentem os efeitos desta perturbação. Em última instância, aquilo que procuramos é promover a melhor vida possível, com o máximo de qualidade e gratificação, apesar de, e para além da, perturbação bipolar.

Acompanhamento familiar

O sofrimento originado pela perturbação bipolar não se reduz a quem dela padece. Pelo contrário. Pelos seus efeitos, as famílias e pessoas mais próximas são igualmente grandemente afectadas. E, na mesma medida em que são afectadas, podem ser uma importante fonte de apoio e potenciadores da melhoria e estabilização. Na prática, existem duas tarefas a cumprir quando trabalhamos com as famílias, preferencialmente em contexto de grupo: por um lado, uma sensibilização para o tipo de manifestações que podem esperar, a sua tendência para a recaída, e os riscos realistas associados a esta perturbação. Por outro lado, é importante reforçar e tornar prático o potencial recurso que as famílias constituem. Nesse sentido, é feito um trabalho no sentido de desenvolver estratégias de incentivo à adesão à medicação, de regulação da forma como interagimos com a pessoa com perturbação bipolar em função da presença ou ausência de picos, de gestão da vida doméstica e familiar para que possa ser o mais satisfatória e normal possível. Uma vez mais, este será também um espaço dedicado à partilha de estratégias de comunicação e gestão doméstica no seio da família, de forma a potenciar a aprendizagem não apenas através da interacção com o psicólogo mas, também, com membros de outras famílias.

Abaixo, encontra um resumo dos possíveis sintomas que podem caracterizar os picos, positivo e negativo, que definem a perturbação bipolar. Se reconhece um número significativo destes sintomas em si, ou em alguém que lhe é próximo, não hesite. Procure ajuda, ou incentive de quem gosta a procurá-lo. A perturbação bipolar não tem que ser uma sentença de infelicidade eterna, e a ajuda está bem mais perto do que possa pensar.

 

Pico negativo

Pico positivo

  • Humor depressivo durante a maior parte do dia
  • Diminuição de interesse ou prazer em quase todas as actividades
  • Perda de peso (sem dieta) ou aumento de peso significativo
  • Diminuição ou aumento do apetite
  • Insónia ou hipersónia (necessidade de dormir muito) quase todos os dias
  • Inibição/lentidão de movimentos
  • Agitação
  • Náuseas, alterações gastrointestinais
  • Fadiga ou perda de energia quase todos os dias
  • Sentimentos de desvalorização ou culpa excessiva
  • Pensamentos recorrentes acerca da morte, ideias de suicídio ou tentativas de suicídio Aceleração cardíaca
  • Humor elevado, expansivo, ou irritável, de uma forma anormal
  • Reduzida necessidade de sono
  • Auto-estima anormalmente elevada, ideias de grandiosidade
  • Indiferença face ao perigo, ideias de invulnerabilidade
  • Dedicação excessiva a tarefas orientadas para objectivos
  • Comportamentos de risco em actividades de prazer, nomeadamente gastos, promiscuidade, actividades extremas
  • Fala e raciocínio acelerados, desconexos
  • Intolerância à frustração e crítica
  • Aumento repentino de sociabilidade, e à-vontade no contacto com outros, nomeadamente desconhecidos
  • Possibilidade de presença de delírios de grandeza
  • Aumento de distractibilidade
  • Impulsividade aumentada

Curiosidades: Algumas figuras históricas e públicas que se pensa terem sofrido de perturbação bipolar

Mark Twain – escritor

Vincent van Gogh – pintor

Kurt Cobain – músico Edgar

Allen Poe – escritor

Winston Churchill – antigo PM do Reino Unido

Sylvia Plath – poeta

Ludwig van Beethoven – compositor

Jimi Hendrix – músico Sting – músico

Mel Gibson – actor

Paul Gascoigne – futebolista

Tim Burton – realizador de cinema

Francis Ford Coppola – realizador e produtor de cinema

Robin Williams – actor

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