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Perturbação obsessivo-compulsiva

O que é?

  • Tem pensamentos que o incomodam, quer porque surgem insistentemente, quer porque o seu conteúdo lhe provoca ansiedade e lhe parece absurdo, e de que gostaria de se livrar, mas, por mais que tente, não o consegue fazer?
  • Quando um desses pensamentos lhe surge, costuma fazer alguma coisa específica, que ajuda a reduzir o desconforto?
  • Sente-se na necessidade de repetir algumas acções várias vezes, sem nenhum motivo aparente?
  • Passa muito tempo em actividades de limpeza pessoal ou da casa ou dos objectos que o rodeiam?
  • Verifica frequentemente aquilo que fez?
  • As suas actividades de rotina diária levam muito tempo a ser executadas?
  • Preocupa-se com questões de organização dos objectos, a sua localização correcta e com a sua simetria?

Estas são questões que, respondidas afirmativamente, podem levá-lo(a) a preocupar-se em pedir ajuda especializada, porque são indicadores da possibilidade de perturbação obsessivo-compulsiva (sujeito a um diagnóstico rigoroso efectuado por um psicólogo ou psiquiatra).

A perturbação obsessivo-compulsiva (POC) é profundamente limitadora da qualidade de vida. Apesar da sua frequência – hoje é reconhecida como a 4ª perturbação psicológica mais expressiva na sua prevalência, tão frequente como, no plano médico, a asma ou diabetes – acreditava-se ser rara e antes dos anos 60 não existia tratamento eficaz para lidar com a situação.

Felizmente, a realidade de hoje é outra e existem, já, formas de intervir, que permitem uma melhoria acentuada de sintomas em cerca de 80% dos casos, o que constitui uma excelente taxa de sucesso.

Mas o que é a perturbação obsessivo-compulsiva? Convém olharmos para os dois componentes desta categoria de diagnóstico.

Obsessões são pensamentos, impulsos ou imagens mentais, desagradáveis, estranhos face ao historial de vida de quem os tem, e que surgem de uma forma repetida e que resistem a ser expulsos da consciência. O facto de surgirem intrusivamente, vindos do nada, de continuarem a intrometer-se na vida do dia-a-dia, de resistirem a desaparecer, apesar dos esforços nesse sentido, e a própria estranheza dos seus conteúdos, origina um elevado desconforto e ansiedade e a pessoa sente-se compelida a fazer algo para reduzir esse mal-estar.

Surgem, assim, as compulsões, ou rituais compulsivos, (ou, ainda numa outra designação que preferimos, os comportamentos protectores) que acabam por cumprir uma função de controlo da ansiedade, ainda que inadequado. Estes comportamentos protectores são, na maior parte das vezes, comportamentos exteriores e, contrariamente às obsessões, que se passam na privacidade do espírito de cada um, tornam-se bastante visíveis para os outros. É precisamente por constituirem a face visível desta perturbação que se tornaram o aspecto mais conhecido do público, inclusivamente por terem sido retratados em filmes como “Melhor é impossível” ou “Aviator”. No entanto, os rituais compulsivos podem ser privados e, portanto, invisíveis, tal como as obsessões.

  • Medos de contaminação por micróbios, elementos patogénicos, sujidade, etc
  • Medo de se ter magoado ou prejudicado a si próprio ou aos outros, inadvertidamente
  • Imaginar que se perde o controlo sobre os seus impulsos agressivos
  • Pensamentos ou impulsos intrusivos e indesejados de natureza sexual
  • Dúvidas religiosas ou morais excessivas
  • Pensamentos proibidos
  • Necessidade de ter os objectos exactamente como “devem estar”
  • Necessidade de contar, perguntar, esclarecer, confessar
  • Medo de certos números, cores ou palavras
  • Lavagens, limpeza (pessoal e/ou dos espaços que se habita)
  • Repetições (de comportamentos, palavras, etc)
  • Verificações (do gás, do fecho das portas, das janelas, das torneiras, etc)
  • Tocar, bater, esfregar (determinados objectos, partes do corpo, etc)
  • Contar (objectos, palavras)
  • Organizar, colocar em ordem e/ou de acordo com uma noção específica de simetria ou organização espacial
  • Coleccionar objectos (inúteis e não valiosos)
  • Récitas mentais (frases religiosas ou supersticiosas comuns ou pequenas frases ou palavras que têm um significado particular para cada um)
  • A prevalência internacional estima-se em torno dos 2%
  • Em 65% das pessoas com POC, os sintomas surgiram antes dos 25 anos e apenas em 15% surgiram após os 35 anos
  • Os homens tendem a desenvolver a sintomatologia em idade mais precoce do que as mulheres
  • Entre 8 a 10 anos é a média entre os primeiros sintomas e o diagnóstico e início do tratamento
  • A perturbação obsessivo-compulsiva varia muito com a cultura e, portanto, varia de país para país, ao nível da sua frequência e ao nível do conteúdo das obsessões
  • Apesar de ligeiramente mais frequente em mulheres, os homens procuram mais frequentemente ajuda.
  • A mudança de sintomas (por exemplo, de verificações para lavagens) é bastante frequente ao longo do curso da perturbação.

 

Um dos aspectos mais dramáticos desta perturbação é o facto de a pessoa reconhecer que as suas acções compulsivas são ilógicas e não têm cabimento no contexto da sua vida e que o conteúdo dos seus pensamentos obsessivos é maioritariamente absurdo e sem sentido. Imagine saber isto e não conseguir impedir-se nem de pensar o que pensa, nem de fazer o que faz… Esta situação está na base do elevado embaraço que as pessoas sentem quando são afligidas pela perturbação obsessivo-compulsiva, o que a torna muito reservadas a propósito do que pensam e do que fazem, acontecendo, por vezes, sofrerem durante anos sem contar a ninguém o que se passa com elas, passando por uma luta angustiante que não se prende apenas com a tentativa de controlo da sua sintomatologia mas, igualmente, com a tentativa de esconder o que se passa, por medo da avaliação que poderão fazer delas.

Além do mais, temos verificado com os casos dos clientes que nos procuram, que se trata de uma das perturbações da ansiedade que mais desgaste físico, emocional e intelectual provoca nas pessoas. Alguns dos nosso clientes, antes de iniciarem um plano de tratamento, tiveram que interromper as suas ocupações profissionais e académicas por não conseguirem, já, compatibilizar o desgaste que sentiam, nem o investimento de tempo nas compulsões (que pode consumir várias horas por dia), com a manutenção dos ritmos normais de trabalho e vida pessoal. São histórias de tristeza e desespero que poderiam ter sido evitadas com uma intervenção precoce, assim que surgissem os primeiros sintomas. Se suspeita que possa padecer de uma perturbação obsessivo-compulsiva, não hesite em pedir ajuda.

A perturbação obsessivo-compulsiva é progressiva: sem tratamento eficaz, vai piorando, ainda que o seu curso seja feito de fases boas e más, um pouco de acordo com o nível de stress que vai surgindo na vida das pessoas. Com alguma frequência, a situação é complicada com a presença simultânea de outras perturbações igualmente do foro psicológico/psiquiátrico; as companhias indesejáveis mais frequentes são: perturbações depressivas, perturbação do pânico, fobia social e fobias simples.

 

Critérios de diagnóstico

Uma obsessão define-se pela presença simultânea das seguintes 4 condições:

1. Pensamentos, impulsos ou imagens mentais, recorrentes e persistentes, que são experimentados, durante algum período da perturbação, como intrusivos e inapropriados e que causam ansiedade ou mal-estar intensos.
2. Os pensamentos, impulsos ou imagens mentais não se referem simplesmente a preocupações excessivas sobre os problemas da vida do dia-a-dia.
3. A pessoa tenta ignorar ou suprimir esses pensamentos, impulsos ou imagens, ou neutralizá-los com algum outro pensamento ou acção.
4. A pessoa reconhece que esses pensamentos obsessivos, impulsos ou imagens são um produto da sua mente (não são impostas do exterior como na inserção de pensamentos).

As compulsões definem-se pela presença das seguintes 2 condições:

1. Comportamentos repetitivos (por exemplo, lavagem de mãos, actos de organização, verificação) ou actos mentais repetitivos (por exemplo, rezar, contar, repetir palavras mentalmente) que a pessoa se sente compelida a executar como resposta a uma obsessão, ou de acordo com regras que têm de ser aplicadas de uma forma rígida.
2. Os comportamentos ou actos mentais destinam-se a evitar ou reduzir o mal-estar ou a evitar uma situação ou acontecimento que provoca medo; no entanto, estes comportamentos ou actos mentais ou não se relacionam de uma forma realística com a situação que se destinam a neutralizar ou evitar, ou são claramente excessivos.

Para o diagnóstico de perturbação obsessivo-compulsiva é necessária a presença de obsessões e/ou compulsões. Além disso:

1. Nalgum momento ao longo do curso da perturbação, a pessoa reconheceu que as obsessões ou compulsões são excessivas ou irracionais ( isto não se aplica a crianças).
2. As obsessões ou compulsões geram forte mal-estar, consomem tempo (mais do que uma hora diária) ou interferem significativamente com a rotina normal da pessoa, o funcionamento profissional (ou académico), ou as actividades sociais ou relações interpessoais.
3. Se existir outra perturbação do Eixo 1, o conteúdo das obsessões ou compulsões não se limita a essa perturbação (exemplo: preocupação com alimentação, no caso de uma perturbação do comportamento alimentar; arrancar cabelos, no caso de tricotilomania; preocupação com a aparência pessoal no caso de perturbação dismórfica corporal; preocupação com drogas no caso de perturbação por utilização de substâncias; preocupação com a possibilidade de ter uma doença grave no caso de hipocondria; preocupação com impulsos ou fantasias sexuais no caso de parafilia; ou ruminações de culpa no caso de perturbação depressiva major)
4. A perturbação não é causada pelos efeitos fisiológicos directos de uma substância (por exemplo, drogas de abuso ou medicação) ou de um estado físico geral.

 

Soluções psicoterapêuticas

Existem, essencialmente, e de acordo com a investigação científica, duas formas de actuar que registam boas taxas de sucesso: a farmacológica (que requer acompanhamento psiquiátrico) e a intervenção psicoterapêutica de abordagem cognitivo-comportamental. É desta que lhe vamos falar um pouco.

O acompanhamento psicoterapêutico baseia-se numa regra que, enunciada, parece simplista, mas que, na prática, se reveste de alguma complexidade técnica. Basicamente, o trabalho que é feito visa enfrentar as obsessões (ao invés de as evitar ou neutralizar) e, em simultâneo, impedir a realização dos actos compulsivos.

A complexidade disto é evidente – o que está a ser pedido é precisamente aquilo que mais ansiedade causa. Quem sofre da perturbação obsessivo-compulsiva despende muita energia na tentativa de afastar os pensamentos, impulsos e imagens mentais que o afligem repetidamente e, no entanto, ao longo da intervenção, vai ser ajudada a enfrentá-los, a ficar com eles quando lhe surgem ao espírito e, mesmo, a pensar nesses assuntos de uma forma mais pormenorizada e a analisar os cenários e consequências mais temidos. E isto é feito sem o benefício da redução da ansiedade que é proporcionado pela execução dos rituais compulsivos.

É precisamente por ser uma linha de tratamento difícil para o cliente que, na Oficina de Psicologia, dedicamos muito esforço em criar as circunstâncias mais adaptadas, a cada momento, à situação individual de cada um, ajustando o ritmo do trabalho, o apoio com que rodeamos esse trabalho e, mesmo, a utilização de técnicas que permitam manter graus de conforto aceitáveis para cada um.

O tratamento é, por isso, muito interventivo, uma vez que se centra em exercícios cuidadosamente desenhados para conseguir obter uma situação controlada de confronto com o material obsessional simultâneo à abolição das compulsões, e estes exercícios, além de serem, pelo menos alguns, feitos em consultório com a presença do terapeuta, devem ser executados entre as sessões.

Uma vez que a perturbação obsessivo-compulsiva se manifesta de uma forma muito individualizada, sendo difícil padronizá-la eficazmente, a intervenção também é feita em contexto individual, ainda que normalmente seja aconselhada a aprendizagem de uma ou duas técnicas complementares à intervenção descrita, em situação de grupo .

Por mais difícil que lhe pareça a intervenção, há duas coisas que lhe podemos garantir: uma, é que o mal-estar que tem passado é infinitamente pior; a outra, é de que estamos habituados a fazer tudo o que está ao nosso alcance para que o processo de tratamento dos nosso clientes seja tão agradável quanto possível. Ficamos à sua espera, para iniciarmos o trabalho necessário a devolver-lhe o bem-estar na sua vida.

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